Algo A Dizer
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Gotas sobre folhas

Por Afonso Guerra-Baião

Ao contemplar a folha orvalhada de um arbusto que teima em brotar numa falha do pavimento, vem à minha mente a figura com que os antigos traduziam a beleza feminina: “Ela é bonita como uma gota d água na folha da couve”. E, junto, me veio a percepção de que esse enunciado tem a forma do haicai  –  pequeno poema de três versos com cinco, sete e cinco pés métricos:

Ela é bonita

como uma gota d’água

na folha da couve.

Assim também, à maneira do haicai, essa comparação aproxima dois universos, cada vez mais tão distantes: o da cultura e o da natureza: aqui, Cosmos (a natureza) está em conjunção com Anthropos (cultura), mediados pela iluminação poética de Logos (a linguagem), num “ato mínimino de enunciação” (Barthes), cujo fascínio vem da forma tênue com que sintetiza o nosso universo.

Talvez tudo isso me ocorra, porque li há pouco dois pequenos grandes livros de haicais: um deles, o Pomar Brasileirinho, de Beatriz Myrrha, lindamente ilustrado por Wander Lara, editado pela Fino Traço, de Belo Horizonte; o outro, Lição das Horas, de Ângela Leite de Souza, com a preciosa ilustração de Luíza Pessoa, editado pela Miguilim, também de BH. Ambos são livros destinados ao público infanto-juvenil, mas que podem encantar crianças de qualquer idade, como é próprio da melhor obra de arte. Para degustação:

 

                                          “Formigas festeiras

                                           Dançam tiondolelê

                  Até restar outonos.”    (Beatriz Myrrha)

 

                                              “À beira do poço

                                Sentei-me com um desejo:

                              Não perder a sede”     (Ângela Leite de Souza) 

 

Diante da gota d’água sobre a folha verde, tais iluminuras poéticas afloram em meu pensamento e me conduzem ao dizer de Wittgenstein: “Uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática”.

Afonso Guerra-Baião é professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo

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Comentários
  Valéria S. Dantas Lopes
14/09/2014

Sua cultura e sensibilidade são contagiantes. Seu olhar atento enxerga o invisível a tantos olhos... Parabéns, Afonso. Parabéns às autoras dos haicais, pelos preciosos versos. Beijos, Valéria.
 
  luca
19/09/2014

Sempre uma aula de sutileza e erudição. Abraço forte.
 
 

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