Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

O velho Ambrósio e sua metade desalmada

Por Maria Balé

Quem não o conhece, acredita tratar-se de um veterano de guerra, embriagado da dramaticidade das batalhas, herança das trincheiras. Na fala embargada ecoa a dor. Não se sabe se por compaixão, ou vaidade, o padre, que se proclamava poeta, abandonou o livro dos evangelhos e escreveu, de próprio punho, um sermão em defesa da honra da ovelha de seu rebanho. E ainda que ele, o portador de petrificada tristeza, não tenha entendido uma só frase, ao final da celebração, o poder curativo era evidente em seu semblante serenizado. Argumenta o vigário que poesia não é só palavra. Com os olhos voltados para o nada e voz aquosa, professa que poesia é música silenciosa.

O mantra narrativo de Ambrósio, um homem franzino que jamais fora visto com os pés para fora de casa, desvestido do paletó duas medidas acima do seu tamanho, é recorrente na prosa dos moradores do vilarejo. Sua saga se debate sem saber ao certo quem a protagoniza. No centro, um homem inconformado pelo abominável golpe desferido por uma mulher malévola. No outro lado do monte, às margens do riacho que separa vielas, e fora do alcance das vistas, ela, a sua algoz.

Rude, sem ser hostil, Ambrósio de Paula Souza sequer suspeitava de que, vendendo saúde, já ultrapassara a existência carnal e passara à condição de andarilho do imaginário coletivo. 

A unha do dedão do pé direito do velho Ambrósio era mantida grande e pontiaguda. Saía pelo furo da botina mofada, feito com o canivete que carregava numa presilha do cinto de couro craquelado. Os parentes mais próximos sabiam que a finalidade era cutucar a perna da companheira, aos primeiros fachos de luz de cada dia, para que ela acordasse, se levantasse, às pressas, para fazer o café e o levasse na caneca branca esmaltada para que ele o tomasse na cama. Hábito cultivado com afinco durante os sem conta de anos de casamento. Daí por diante, até a hora de a noite encerrar a vigília, o direito de ir e vir só se garantia sob a égide dos mandos e desmandos do consorte que não pôde lhe dar filhos. Como sombra, ela estava sempre a postos para o cumprimento das ordens da hora.

Donana, Antonieta de batismo, olhos secos, coração molhado. Alheia à pluralidade das cores, vestia-se invariavelmente com a cor preta e suas tonalidades. A velha e respeitada senhora remetia a uma nuvem carregada, a ponto de cair em tormenta.

Não há bem que dure para sempre, nem mal que seja eterno, verso entoado no realejo ao cessar da chuva de arroz no longe da sonhada boda, jamais saíra da memória da noiva antiga. E foi quando, na incipiência daquela manhã de outono, a pequena lança no terminal de um dedo curvado não encontrou a lacerada canela no lado esquerdo do colchão de capim tomado por bolor, disforme e mal encaixado na cama de catre. Aos primeiros fachos de luz da aurora de atmosfera úmida e fresca, ausentou-se o aroma do café feito no coador de flanela e não houve qualquer vestígio dos trapos do vestuário de Donana. A centenária caneca branca esmaltada, trazida da casa de solteira, também foi levada.

Cautelosa, e sem reticências, a anciã matuta, devota de mais de um santo, persignara-se, tomara a si mesma pela mão, e fora morar com a irmã, mais jovem e solteira, único parente que restara. Ex-freira, a irmã vivia sozinha e se sustentava com a venda dos tapetes que tecia com retalhos recolhidos no lixo da oficina de costura, construída nos fundos da igreja, atrás da sacristia. Amarrados com técnicas de artesania, o colorido das tramas alegrava a saída da concorrida missa do primeiro domingo de cada mês, celebrada pelo pároco da cidade vizinha. Donana ainda sonhava com algemas e esquisitices. Agora, não mais como arsenal da manu militari do homem franzino que não saía de casa sem o paletó dois números acima de sua medida, mas, instrumentos das histórias de aventuras que escutava no rádio, nos seus tempos de menina. Enterrou a esposa devotada.

Enquanto engendra a tapeçaria, em cada nó, ata, bem atado, pedaços de sua felicidade discreta.

(Conto finalista no Concurso Acesc – São Paulo, edição 2014)

Maria Balé é escritora

Envie seu comentário:
Nome:*
Email:**
Comentário
Imagem de verificação

*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
Comentários
  sergio antunes
11/09/2014

Só podia ser finalista. Por enquanto.
 
  Angela Leite de Souza
11/09/2014

Simplesmente maravilhoso, Maria!!!
 
  Adriane Garcia
12/09/2014

Conto maravilhoso. Escrito com maestria. Donana achou de ser feliz ainda nesta vida. Que coisa linda.
 
  Rodrigo Machado Freire
13/09/2014

Fiquei tentando escolher uma parte deste texto para publicar. Cada hora escolhia uma... "O melhor dele é ele inteiro!" - concluí! A habilidade dela está em cada frase, em como posiciona as palavras... Nada, exatamente nada, é vão no texto. Tudo corrobora com o encantamento em que me encontro agora. E sem hipérboles: É gran-di-o-so!
 
  luca
19/09/2014

É um privilégio ler seu conto em primeira mão e antes de ser premiado. A frase final é um delicado broche da fina artesã da palavra que você é. Um brinde! Beijos.
 
  Valéria S. Dantas Lopes
20/09/2014

Sensacional, Maria! Sempre que a leio, passo por etapas: arregalo os olhos, franzo a testa, dou um risinho de satisfação, me emociono e aprendo muito. São sensações de uma leitora fiel e atenta. Parabéns por ser finalista.O primeiro lugar será seu! Um beijo, Valéria.
 
  Adriana Aneli
13/12/2014

Conto de quem nasceu com o talento no sangue! História certa, no tempo exato... Maravilhoso, Balé!!!
 
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Marcelo Nunes | Design - Pat Duarte