Algo A Dizer
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Futuro do presente

Por Angela Leite de Souza

Outro dia, saindo do restaurante onde habitualmente almoço, presenciei uma cena rara nos últimos tempos: em cerca de trinta mesas ocupadas ninguém falava no celular, nem tinha fones nas orelhas e muito menos um tablet entre as mãos!... Prestei mais atenção e vi que os comensais (esta bela palavra tão em desuso, já que significa compartilhar a mesa, ou mensa, em bom latim) conversavam tranquilamente. Aqueles que almoçavam sozinhos, ou liam um jornal – outra atividade em vias de desaparecimento –, ou simplesmente saboreavam a comida.

Fiquei então pensando em como somos paradoxais. A tecnologia da comunicação há muito ultrapassou os sonhos dos ficcionistas. Dispomos de recursos inimagináveis até, digamos, uma ou duas gerações atrás. Em vez de esperar ansiosamente pela carta de um amigo, nós conversamos com ele em tempo real. A propósito: existe um tempo  irreal? O tempo não é somente uma referência inventada pelo homem para escapar à ideia insuportável da eternidade?

A dificuldade de administrar o próprio tempo é justamente o que nos move a criar estratagemas de ludibriar sua inflexível passagem – nunca se comunicou tão intensa e velozmente como agora. Namoros podem nascer entre internautas. O Google tira toda e qualquer dúvida. Até cursos superiores são feitos à distância e, graças a eles, foi também acrescentado ao nosso vocabulário o termo “presencial”, em oposição a “virtual”. Por isso tanto me espantou ver um bom número de pessoas presentes ao seu almoço, com os companheiros de mesa e, mais importante, consigo mesmas.

Prefiro encarar esse momento como um sinal de mudança. Talvez estejamos começando a nos cansar dos encontros eletrônicos, da falta de privacidade, do excesso de ausências presenciais aonde quer que vamos. Ou, quem sabe, está mesmo em curso o processo apontado por Luc Ferry em seu precioso livro “A revolução do amor”? A tese desse pensador francês é a de que o mundo estaria entrando na era de um novo humanismo, em que as relações baseadas na pura afetividade seriam capazes de vencer o desencanto e a desesperança. Segundo ele, a negatividade que permeia o pensamento atual pode estar com os dias contados, graças às novas e variadas formas de relacionamento, cuja motivação deixou de ser o interesse econômico ou a conveniência. Hoje, é com base no sentimento que se constituem os diversos tipos de famílias.

Tomara que esse modo de vislumbrar o futuro próximo seja tão acertadamente profético quanto o de um Júlio Verne. Tomara que tenhamos a sabedoria de aliar todas as nossas vertiginosas conquistas a um viver melhor que o dos antepassados e com um prognóstico ainda mais positivo para os que nos sucederão.

Angela Leite de Souza é escritora e ilustradora, filiada à AEILIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil –, à Abipro – Associação Brasileira de Ilustradores Profissionais e à FNLIJ – Fundação Nacional de Literatura Infantil e Juvenil
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Comentários
  Alexandre Brandão
12/09/2014

Muito bom, Angela, um pingo de esperança afinal de contas.
 
  luca
19/09/2014

Um convite a reflexão. Com otimismo e esperança. Beijos.
 
 

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