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Como nascem as bruxas

Por Cinthya Nunes

Há alguns anos eu tenho uma teoria própria sobre bruxas. É aquela velha história: não creio nelas, mas existem, infelizmente. Particularmente, no correr de minha vida, tive o desgosto de conhecer várias, para meu desgosto.

Antes que alguém pense que estou falando sobre a existência de bruxos como Harry Potter, já aviso que não é sobre isso que escrevo, em absoluto. Sobre esses seres eu nada sei e apenas divirto-me com a ficção. Contudo, pensando com minhas caraminholas, eu acredito que de algum lugar deve ter saído o estereótipo da mulher encarquilhada, cheia de verrugas, que passa a vida a desejar e fazer o mal para os outros.

Estou certa de que quase todos conhecem esse tipo de pessoa. É aquela criatura que é infeliz consigo, com a vida, que não sorri, que só sabe falar mal da vida alheia, que reclama de tudo e de todos. Penso que gente assim vai destilando um fel que, na mesma proporção que é colocado para fora, desce garganta abaixo, amargando e amargurando, ainda mais, suas miseráveis existências.

Como se corroídas de dentro para fora, elas vão se encurvando, física ou psicologicamente, até que um dia apenas são capazes de enxergar seus próprios e inúteis umbigos. E eis que nasceu uma bruxa ou um bruxo! O problema de tudo é que esse processo é irreversível e essas pessoas jamais deixarão de ser aquilo no que se tornaram. Ao contrário, com o passar dos alunos, apenas terão essa condição agravada. Na juventude, enquanto a beleza e o vigor físico ajudam a camuflar algumas coisas, os bruxos até se misturam aos demais, mas na velhice, quando muitos ficam sozinhos com seu próprio mal, quase nada é capaz de ocultar o quanto fizeram de ruim a eles mesmos.

Gente assim, nesse ponto da vida, tem ódio e inveja da risada alheia, até porque já nem mais sabe o que é isso. São criaturas que poderiam ir parar dentro de uma novela, de um livro, de uma peça de teatro, porque seriam cômicas, se não fossem tristes. A arte imita a vida e qualquer um que tiver olhos de ver será capaz de encontrar essa categoria de bruxos e bruxas por aí. A bruxaria da qual são capazes, no entanto, mais lhes atinge do que a qualquer outra pessoa.

Traz a eles solidão e infelicidade. Infelizmente, entretanto, eles tem também o poder de atormentar a vida alheia, seja com fofocas, com reclamações, com condutas indesejadas e outras coisas mais.

Não tenho qualquer dúvida de que muitas lendas sobre bruxas nascerão assim. Basta lembrarmos da madrasta da Branca de Neve. Linda, ela não podia viver sob a sombra da igual beleza alheia. Quando ela se transforma na bruxa verruguenta e feia, apenas se virou do avesso, nada mais. Aquilo era sua essência. O belo e o feio, o bem e o mal, todos podem vestir a mesma indumentária, o mesmo rosto, a mesma idade. A nossa essência, contudo, não ocultamos de todos, não o tempo todo, não para sempre. Talvez por isso a Bruxa Má quisesse o coração da Branca de Neve e não a sua cabeça, como prova da sua morte...

Dureza quando as bruxas estão mais perto do que podemos suportar, mas muito mais sério é encontrá-las no espelho. Se um dia eu me tornar assim, darei conta de providenciar minha própria maçã envenenada...

Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras

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