Algo A Dizer
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Desorganização e método

Por Marcílio Godoi

A “bagunça” é uma ciência exata. Assim como há ordem no caos, baseada em sistemas dinâmicos não lineares, eu também posso explicar direitinho o resultado aparentemente, por assim dizer, “zoneado” da minha mesa: trata-se de uma aplicação do conceito de territorialidade que venho desenvolvendo ao longo dos anos e que batizei de “Interação Ordenada dos Acasos”.

De início, digo que é absolutamente natural e compreensível esse sentimento contraditório, advindo do medo do imprevisto e da aversão ao aleatório quando a pessoa se aproxima da escrivaninha que divido com a minha mulher, assim, atulhada de livros, uma montanha de cadernos e outros objetos cortantes.

Posso vos garantir, no entanto, que tudo aqui sobre essa mesa repousa na mais absoluta paz e em uma ordem hierárquica remissiva íntima-instável, catalogada por ferramentas mentais avançadíssimas de busca e apreensão interna, que mapeia, com o meu moderno GPS afetivo-conspícuo-sensitivo-bibliográfico, o tomo certo na base de dados fotográficos que alojo na base do hipotálamo e assim localizo o livro desejado em tempo real.

Para que eu possa me fazer compreender em meio a essas ideias um tanto complexas de organização determinística no plano material, tomei emprestado alguns ensinamentos da visão estética do wabi-sabi, espécie de ética milenar oriental centrada na aceitação plena e cósmica da transitoriedade e da imperfeição.

Para essa admirável e abrangente concepção japonesa de mundo, o belo é “imperfeito, impermanente e incompleto”. Nele, experiências como a assimetria, a aspereza, a intimidade e o despojamento advêm de processos naturais, subvertendo a lógica canônica da perfeição, da pureza e outros dogmas bauhausianos.

Minha mulher, talvez devido às minhas insistentes explanações, assimilou bem a realidade, digamos, orgânica do processo, mas criou na mesa duas faixas de ocupação divididas pela neutralidade aparente da impressora. Do lado esquerdo, a mesa limpa, o vidro brilhando, livros e papéis bem ordenados, alinhados até; do lado direito, bem, do lado direito, a vida. Submersa, aterrantemente aterrada pelos volumes que vou abrindo e ali deixo para que tomem ar. No silêncio, dá para ouvir bem: os livros, eles respiram.

Marcílio Godoi é arquiteto e jornalista. Mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, escreve há quatro anos a Coluna "O português é uma figura", na Revista Língua Portuguesa e é autor de A inacreditável história do diminuto sr. minúsculo, (vencedor do Prêmio Barco a Vapor 2012), São Paulo, cidade invisível, uma reportagem literária sobre personagens marginais à grande metrópole (vencedor do Grande Prêmio Cásper Líbero 2002); Ingrid, uma história de exílios, a saga de uma menina em busca do passado misterioso do pai; A pequena carta, uma fábula sobre a gênese de nossa primeira reportagem, a carta de Caminha; e Pequeno dicionário ilustrado de palavras invenetas, um ensaio lúdico com neologismos da língua portuguesa

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