Algo A Dizer
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Agosto

Por Sergio Antunes

O mês de agosto me remete a outros agostos e especialmente a um vinte e quatro de agosto. Foi a data em que Getulio Vargas deu um tiro no próprio coração. Saiu da vida para entrar na história.

Eu estudava no Grupo Escolar Dom Henrique Mourão, em Lins. A notícia chegou pela manhã, período em que estudava. O Presidente da República havia se matado. Foi às sete horas e cinqüenta e dois minutos e trinta segundos. Por isso, a primeira providência da Diretora, dona Placidina, que cantava no coro da igreja, foi dispensar os alunos. Nós tínhamos entrado para a sala de aula às sete e meia e lá pelas oito, oito e meia, eu já entrava em casa.

Meu pai era da UDN. Contra Getúlio, portanto, que era do PTB. Então, eu, naquele dia, naquela manhã, entrei em casa gritando de felicidade. Um pouco pela morte do Getúlio e muito pelo fato de terem suspenso as aulas, feriado inesperado que me pegou quarta feira.

Ouvi uma bronca da minha mãe. Que diabos, era o Presidente da República e isso deveria exigir respeito de todos os brasileiros. Inclusive dos filhos de vereador da UDN.

Botei minha viola do saco e fui gozar o feriado, murcho que só flor de gaveta, enquanto minha mãe ouvia as notícias pelo rádio.

Depois, Jânio renunciou num dia de agosto, jogando o Brasil numa longa crise e que desembocou na mais longa ditadura de nossa história. O que acontecia de ruim, geralmente acontecia em agosto.

Agosto é o oitavo mês do ano e assim foi batizado em homenagem ao imperador romano Octávio Augusto.

Além de ser o mês de cachorro louco, nem sei porquê, agosto é conhecido pelas grandes tragédias. Já em 430 antes de Cristo, Leônidas e seus 300 espartanos foram derrotados nas Termópilas por Xerxes e seus soldados persas. Ao ser ameaçado de que os inimigos eram tão numerosos que as suas flechas, quando atiradas, cobririam o sol, Leônidas teria respondido com um certo ar blasé: “melhor, combateremos à sombra”.

A bomba atômica foi usada como arma pela primeira vez no mês de agosto e o Iraque invadiu o Kwait, acirrando a crise que perdura até hoje, também em agosto.

Foi em agosto de 1914 que começou a Primeira Grande Guerra e em agosto de 1578 D. Sebastião, rei de Portugal, desapareceu na Batalha de Alcacer Quibir. Dizem que os portugueses ainda hoje olham para a África na esperança de que D. Sebastião apareça no horizonte. O que, aliás, não é coisa de português. Os brasileiros também não se cansam de procurar um novo Juscelino que, aliás, morreu em 22 de agosto de 1976.

Também em agosto morreram Marilyn Monroe, em 62, Elvis Presley em 77 e a Princesa Diane em 97. A princesa eu tenho certeza. Já Elvis, às vezes é visto no andar superior de sua casa, em Fenix, Arizona, gordo e suado, cantando Love me Tender em Espanhol. Mas Nixon, isso é incontroverso, renunciou em agosto, premido pelos acontecimentos que começaram com a invasão à sede do Partido Democrata em Watergate.

Eu, da minha parte, fiquei quietinho em casa, na esperança de que agosto me passasse sem maiores solavancos. Acho que vai passar.

Enquanto meus dedos tenham nós e minha escrivaninha seja de madeira, não custa bater nela três vezes por garantia.

Mas, em vão. Não bastasse Miguel Arrais, agora seu neto, Eduardo, não atravessou agosto.

Particularmente, porém, eu que sou poeta, ainda que poeta municipal, caipira e provinciano, prefiro a referência feita ao mês fatídico pelo poeta Casimiro de Abreu: “Simpatia, meu anjinho, é o canto do passarinho, é o doce aroma da flor, são nuvens no céu de agosto, é o que me inspira seu rosto, simpatia é quase amor.

O poema é bonitinho. Mas é bom não abusar das nuvens do céu de agosto. O céu de todos os santos anda de muito mal humor.

Sergio Antunes é poeta e escritor
Contato: sergioantunes@ig.com.br

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Comentários
  Leonel Prata
13/09/2014

Sempre é bom ler e reler Serginho Antunes. Publica uns poemas aí, mano.
 
  cecilia
17/09/2014

belo texto Sergio Antunes. Muitas lembrancas de Agosto.
 
  Sylvio Luís Daher
19/08/2015

Um ano depois...Agosto continua o mesmo !
 
 

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