Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

O almoço

Por Valéria Lopes

O interfone toca e, imediatamente, Clô atende:

— Quem é?

— Ayres e Marieta – diz a voz masculina.

— Um minutinho... Abriu?

Logo, as visitas tocam a campainha. Antes de abrir a porta, Clô ajeita o cabelo, confere se o desodorante está vencido e testa o hálito na palma das mãos. Tudo certo. Abre a porta:

— Minha Nossa Senhora, é um prazer impregnado conhecer vocês. Eu sou a Clotilde, empregada da casa, mas pode me chamar de Clô. Vamos entrando, gente! Podem se sentarem-se à vontade, vou chamar dona Lurdinha. Minha patroa demora uma vida pra se arrumar. É um tal de põe e tira roupa... Um minutinho só.

— DONALURDIIINHAA, AS VISITAS CHEGAAARUM! – grita do primeiro degrau da escada e logo a patroa aparece.

— Credo, que gritaria! Tava ajeitando o meu cabelo que logo hoje tá uma bosta.

— Tá nada. A senhora tá linda como sempre.

Chegando à sala, Lurdinha abraça o casal de amigos:

— Ayres e Marieta, que alegria tê-los em minha casa!

— Dona Lurdinha, já posso pôr a mesa?

— Espere, Clô! Vamos servir uns drinques primeiro. Vocês bebem alguma coisa?

— Eu e Marieta gostamos de um vinhozinho...

— Pode deixar, dona Lurdinha, que vou servir o melhor vinho da casa...

Clô encolhe a barriga, empina a bunda vai até o bar, pega as taças, as coloca na bandeja e serve o vinho como deve ser sob o olhar curioso de Ayres.

— Parabéns, Lurdinha, você tem uma secretária exemplar! Como apreciador de vinhos, nunca fui servido com tamanha destreza.

— É mesmo. – concorda Marieta.

— Dona Lurdinha me ensina tudo. Não deixo ela passar vergonha. Não é, dona Lurdinha?

Lurdinha lhe sorri concordando e ela se empolga...

— Agora, tem coisas que só Jesus na causa! Ela é uma mão furada, seu Ayres!Tuuudo cai no chão. Geralmente a empregada é a quebradeira da casa. Aqui é o contrário.

— Clô, não exagere! – diz Lurdinha ensaiando um sorriso meio sem graça.

— Minha patroa é uma santa. Booaa toda vida, mas me deixa doidinha. Perde tudo. “Viu minha bolsa? Onde tá isso, onde tá aquilo?” Os óculos, então, somem toda hora. Deus me livre!

— Clô, acho que está na hora de pôr a mesa. – sugere Lurdinha.

— Com suas licenças, vou pegar as travessas com as comidas.

— Ayrez, Marieta, não reparem... A Clô é faladeeeiiira como ela só, mas é ótima pessoa, tem bom coração, é de confiança...

 — Imagine, Lurdinha! Ela é uma graça... – fala Ayres, enquanto Marieta levanta uma das sobrancelhas.

O almoço acontece num clima agradável.

— Clô, estou de queixo caído. Que tempero maravilhoso, né, meu amor? – elogia Marieta.

— Rãrãrã – concorda Ayres.

— Segure seu queixo, dona Marieta, que ainda vem a sobremesa: um pavê de frutas vermelhas, daqui ó! E não é só pavê, não!!

— Fiz um doce de abacaxi. Traga-o também, Clô. – lembra Lurdinha.

— Desse jeito vou sair daqui rolando. – brinca Ayres levantando-se e se dirigindo à Lurdinha, falando-lhe algo ao pé do ouvido. Imediatamente, ela lhe responde:

— Primeira à direita, no final do corredor.

Ayres sai meio apressado. Marieta se preocupa, estica o pescoço, tenta acompanhá-lo com o olhar.

— Será que ele tá passando mal, gente!? – grita Clô, se encaminhando para segui-lo.

— Clô! – repreende Lurdinha – Onde você vai? Eu, hein, ele foi ao banheiro!

— O coitado saiu prendendo as pernas! Parecia que tava... Sei lá! Vamos esperar.

Quando Ayres chega à sala, vem secando a testa com um lenço.

— Tá tudo bem, meu amor? – pergunta Marieta.

— Está sim.

— Vai me dizer que o senhor é um reloginho ingual eu. Porque o meu dá sinal logo que amanhece o dia e tenho que correr pro banheiro, senão...

Ayres lhe sorri meio sem jeito.

— Voltando a falar do almoço, se eu não soubesse cozinhar, tava todo mundo ferrado nessa casa. Dona Lurdinha não sabe nem fritar um ovo. Não mexe em panela de pressão e nem trocar bujão de gás ela sabe.

Ayres solta uma gargalhada e Lurdinha emenda uma pergunta:

— Vamos às sobremesas, então?

Clô serve um a um, falando pelos cotovelos.

— Está divino esse doce de abacaxi. – elogia Ayres.

— Quero provar um pedacinho do pavê da Clô. – pede Marieta.

— Fiz pavê pra variar, porque dona Lurdinha só sabe fazer doce de abacaxi.

—  Clô, não precisa me entregar, pô! Fiz, porque sei que o Ayres adora abacaxi.

Depois da sobremesa, enquanto Clô prepara o café, conversam na sala:

— Ayres, me diz como está a família... Vocês vão encontrar os filhos nessas férias? Ah, me desculpe não ter ido ao aniversário do filho de vocês, mas naquele dia, aconteceu um imprevisto...

Clô chega com a bandeja e interrope Lurdinha:

— Naquele dia, foi ela que teve um piriri. Não saía do banheiro. Ficou verde ingual um abacate. Era por cima, por baixo... tsc tsc Fiz até  soro caseiro!

— E o casamento? Lurdinha me disse, certa ocasião, que a secretária dela estava noiva... – fala Ayres, mudando o rumo da prosa.

— Que maravilha! Vai se casar... – diz Marieta, num tom bem animado.

— Euzinha casar com o Robisu, aquele atraso de vida? Jamé, jacaré! Com todo respeito, dona Marieta, mas se fosse com um homem assim que nem e ingual ao seu marido, valia a pena. Mas aquele estrupício? Precisa de ver a última que ele me aprontou...

Lurdinha se apavora e a censura na hora:

— Clô, veja lá o que vai dizer...

— Deixe ela contar, estou me divertindo... – interrompe Ayres bem curioso.

— Sabe o que foi? – Clô tira o avental e se senta ao lado de Ayres, aproveitando que Marieta se levanta para pôr a xícara na bandeja. – Ele sabe que gosto de cachorro.

— Ah, que graça! Comprou-lhe um cãozinho! – diz Marieta se enfiando entre Ayres e Clô.

— Pois é, me deu de presente um cachorro. Na hora gostei, gosto de bicho, trato bem. Dona Lurdinha tá de prova, porque cuido muito bem da Gertrudes, a tartaruga que fica lá no jardim transando com o vasinho de violeta.

Marieta enrubesce as faces, mas cai na gargalhada.

— Clô!! – repreende Lurdinha.

— Ué, dona Lurdinha, ela não fica no lesco-lesco com o vaso? Bicho não se aperta  pra nada. Então, ele me chega com um cachorro todo estrupiado e cheio de ziquizira. Botei a boca no trombolho: “Você pegou esse cachorro no lixão, seu unha de fome?” Daí, disse que comprou na feira de adoção... Mentira! É mão de vaca, aquele lá... Ainda falou: “Pô, mô! Achei que tava fazendo uma boa ação e você me esculacha? Sacanagi...

— Você devolveu o cão? – indaga Ayres.

— Não, não... Mandei raspar o pelo, dei banho, cuidei e falei pra ele: um cachorro fica; o outro, vai embora.

— A Clô é assim: vive mandando o Robson embora, mas não larga o osso. Não trepa nem sai de cima... – diz Lurdinha, num ímpeto, mas se arrepende do termo usado. – Ai, meu Pai, me desculpe, não foi isso que quis dizer...

— Quer dizer que agora você tem um cãozinho, mas não tem noivo? – pergunta-lhe Ayres, ainda rindo do comentário de Lurdinha.

— Pois é, se tiver uma xérox do senhor, um irmão, um primo, pode me apresentar que estou aberta a um novo relacionamento.

— Ai, ai, ai, Clô! Assim você constrange meus amigos...

— Imagine, Lurdinha! Estou bem à vontade. – fala Ayres e Marieta concorda, afirmativamente, ao mesmo tempo que pede pra Ayres lhe servir mais café. Não se levanta com medo de perder o lugar de novo para Clô.

A tarde segue animada. Veem fotos antigas, contam casos. Marieta e Clô trocam receitas Ayres e Lurdinha falam dos poemas, de livros, de histórias da infância...

Anoitece e o casal decide ir embora.

— Ah, que pena! Foi tão agradável! Vocês virão outras vezes, prometem? – fala Lurdinha sentindo um pesar enorme na hora da despedida.

— Lógico. E da próxima vez quero conhecer seu marido e suas filhas.

— Marcaremos um almoço lá em casa, que tal?! – emenda Marieta.

— Adoraria. – fala Lurdinha com lágrimas nos olhos.

— Posso ir também? – pergunta Clô.

— Querida, você é nossa convidada de honra. – diz Marieta gentilmente.

— Assino embaixo. – completa Ayres lhe sorrindo.

— Gente, eu tô emocionada. – fala Clô, meio chorosa ­– Eu tenho que falar, peraí: Seu Ayres e dona Marieta, de todas as visitas que vinheram aqui, vocês foram os únicos que me trataram como se fosse da família. Aqui, ó, tô arrepiada...

— Imagine, você é agradabilíssima. – fala Ayres educadamente.

— Com todo respeito vou dar um beijo e um abraço no seu marido, tá, dona Marieta?

— Fique à vontade, Clô! – diz Marieta sorrindo, mas segurando forte uma das mãos do marido.

Entram no carro e dão a partida sob os olhares e os acenos das duas. Lurdinha olha pra Clô e a vê secando as lágrimas com um lenço.

— Clô, esse lenço é do Ayres! Vou ligar pro celular dele, ainda devem estar na rua de trás.

— Não, dona Lurdinha, quando a gente for no almoço a gente devolve.

— Como o lenço foi parar nas suas mãos?

— Não briga comigo. Quando eu abracei ele, puxei do bolso de trás da calça. Deixe eu ficar com essa lembrança? Nem vou lavar, vou ficar cheirando todo dia.

— Ai, Clô, você não se emenda. Ainda bem que a Marieta é bem resolvida. Amanhã, ligo pra eles e digo que devolveremos o lenço no dia do almoço. Aff!

Valéria Lopes é escritora

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Comentários
  Ciro Fonseca
14/09/2014

KKKKKKKKKK Eu simplesmente sou fã de carteirinha da Clô. Acho que os diálogos criados por você, que envolvem a Clô. simplesmente hilários. Parabéns pela homenagem e um casal que nós também gostamos muito;
 
  luca
19/09/2014

Texto fantástico. Não sei o porquê, mas acho que nem tudo nele é ficção, a narrativa toda está verídica demais. Beijos.
 
 

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