Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Esquizoema

Por Antonio Barreto

(psicautópsia das coisas sem nome: gravetames...)

ou

(quem, agora, dará nome aos peixes?)

 

Foi então que dois quadrúvios passaram incólumes

pelas gotículas indissolúveis do peixilúvio.

No novilúnio das lubisteclas três moléculas pulsaram céleres nos pedrúvios.

E muito além, ao longe das locas, quatro muvucas psicodélicas

pulularam sobre as polocas. E, num sorrelfo de elfos

– nesse mundão inenarrável de melpos – trouxeram seus infernais esquelpos.

E inundaram tudo com seus pulpos e espalpos de miagalpos.

 

Mais tarde, nas conversas beiralua,

correram noitícias de tardícias das pixuvas.

            E os extrúvios falamudaram nas extruvas.

            E os solúvios silembraram das celuvas.

            E um escravel que escarafunchava uma saúva

            se protegeu sob a sombra das munduvas.

Dessa feita, a chuva veio e me levou consigo.

Como se nada disso tivesse acontecido.

            E o mundo, outra vez, de mim ficou subtraído.

 

Agora, esse final de história sem história...

Pode ser, como sempre, em algum lugar de sempre

o de repente se eternize (ou se faça crível)

e tudo que se fale se torne verossímil:

            apenas as penalmas dessa coisa horrível

            as órridas lembranças de um dia indescritível

            muito embora ninguém fale mais sobre esse tema

            muito embora ninguém lembre mais tal teorema

            muito embora todo mundo saiba apenas que um poema

havia sido reescrito e desescrito. O revoema anome

fora da norma, em sua nova forma informe, implume, inesquecível:

            (as palavras conservadas no formol do semantema).

 

Depois, as palágrimas dilaceradas pelos dedos do legista

doutorado na gramática do ressol que luarina

            no cadáver do peota que idiota se dentista

            no cadáver do açougueiro que de carne se rumina

            no folharal do engenheiro que era apenas desenhista

muito embora seu poema fosse apenas modernista

acendendo lamparinas onde a luz doía a vista

apagando a noite escura onde a sombra já sombria

cutucava a estrela-guia. E beliscava o analista.

 

Agora, nada sobra sobre os dédalos dos cactos

tudo tórrido no órrido desdeserto

que estorrica até o vento imerso em si

no ar parado dos lagartos em solúpios.

 

Com seus telsos, devastados, os aracnúpios

são guindastes que não vemos entre os núpios

nas miragens minimais dos espinestros

dedalando seus dedais datilodestros.

 

Assim será até que anoite e alue

até que o mundo acéfalo continue

até que a chuva finalmente adie

o borbolétrico baile dos rátafos

e o esotérico bailareco dos sápalos.

 

Mas uma coisa inda me deixa fora dos eixos,

esfrangalhado, no queixume, olhando o aquário:

            Quem agora, depois de mim, dará nome aos peixes?

            Quem agora, dentro do aquário, colocará o gato?

            Quem agora, dentro do gato, colocará o peixe?

 

***

Antonio Barreto, 60, é poeta, contista, romancista, compositor e cronista. Ganhador de alguns dos mais importantes prêmios literários nacionais, publicou mais de 40 livros. Entre eles: Vastafala e Lua no Varal (poesia); A Guerra dos Parafusos (romance) e O papagaio de Van Gogh (crônicas)

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Comentários
  Nagao
11/09/2014

O barretês é um idiomanês que embasbaca até as verbimbáceas do pental ganírio.
 
  luca
19/09/2014

Emendando no Nag@o coments, além do homem que falava barretês e do pental ganírio, lembrou-me um antigo soneto do Millôr. Inventar é preciso. E bota precisão nisso!
 
 

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