Algo A Dizer
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Eletroconvulsoterapia

Por Vivian Pizzinga

Aconteceu comigo em 1983. E valeu a pena, era a única opção possível na múltipla escolha das condutas terapêuticas que me cabiam. Foi a única vez. O que me permite deduzir que: não acontecerá mais.

Eu era uma planta antes. Ou estava me acostumando a ser uma planta. Eu tinha vinte e dois anos. Estava na faculdade de História. Minha mãe, dentista, trabalhava muito, e pagava a faculdade particular do meu irmão mais velho. Meu pai havia saído de casa e telefonava mês sim, mês não.

De repente tudo começou a ficar tão difícil que: parei de ir à faculdade e de atender ao telefone. Não saía de casa à noite porque tinha medo e não saía de casa de dia porque o sol me deprimia, ofuscava meu raciocínio, queimava minha paciência.

Fui ficando uma planta enjaulada por escolha própria, restringindo-me a poucas palavras diárias e a ralos movimentos semanais. A cama me dava conforto, o escuro me apetecia. Em 1983 havia restinhos de ditadura circulando pelo ar e resolvi desistir daquela droga de faculdade.

Quando quiseram me levar ao médico, recusei, e quando o médico foi lá em casa, virei a cara, e quando me levaram para a clínica, eu já não demonstrava resistência, e quando decidiram pelo choque, eu não dei um ai.

Sei dizer que não me lembro de nada, mas nas semanas seguintes, eu sonhava que me colocavam numa câmara fechada, e à medida que eu inalava o destino, expelido por um tubo metálico no recinto em que eu estava, ele todo me amassava (o destino), como se eu fosse papel carbono: eu era um verdadeiro papel carbono em suas mãos, ele me rasgava, me embrulhava, me triturava, fazia picadinho da minha antiga estrutura, e eu não tinha uma essência minha que dissesse ao destino um ‘não!’ audível, eu apenas copiava o que o mundo a mim me apresentava.

 

Meu corpo foi se desestruturando a cada noite, eu era um papel carbono velho, roto e riscado, meu tórax embaralhado, meu cabelo emaranhado, meu sorriso desmiolado. Não me restava mais nada. Para me erguer, a partir dali, eu precisaria de anos. Mas, pelo menos, após a conduta terapêutica, após o choque – o horror – eu não era mais uma planta. Eu voltei a ser eu, ainda que desmontada.

Vivian Pizzinga é psicóloga e escritora, autora dos livros de contos Dias roucos e vontades absurdas (2013) e A primavera entra pelos pés (2015), ambos pela Editora Oito e Meio

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Comentários
  ELISABETE LEMOS DA CRUZ
23/09/2014

Nossa, gostei muito do seu texto. Li mais de uma vez e refleti muito a cada parágrafo, pois voltei no tempo e vi claramente em minha mente a minha primeira experiência profissional de em uma clínica psiquiátrica que trabalhei por quase dois anos, como aux. de enfermagem. Semanalmente havia as sessões de ECT. Horríveis. Tive pesadelos na primeira semana. Muito bom seu texto. abraços
 
  Mauricio de Assis
25/12/2014

O duplo, ainda mais quando uma cópia sem valor, assusta quem vivência a experiência de sentir-se um papel em branco, um vegetal, que por sua vez, é de onde sai o papel. Seria este personagem um histérico? Papel carbono é um material de pouco valor que multiplica a escrita, mas que depois de pouco uso é jogado fora. Não é a nossa condição existencial fragmentária que se reflete nestes textos picados em forma de conto da Vivian Pizzinga?
 
 

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