Algo A Dizer
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Pretty woman

Por Maria Balé

Controlado o impulso de me atirar na ira, respiro fundo e sigo em frente. O estresse anunciado pela greve dos trens metropolitanos na cidade de São Paulo já me basta. O dia apenas começa e a manhã ainda é infância. Decido que o motorista que não me permitiu entrar à esquerda e seguir pela rua transversal é um ser rasteiro, e, um acordo firmado, há tempos, não discuto comigo a respeito de seres rasteiros. Bora, digo eu pra mim. Bora, claro, se o trânsito fosse possível. Avenida Berrini, bairro do Brooklin, em obras, quem conhece tem uma ideia. Então, nesse anda-trava, deparo-me com a leveza da cena. De dentro do uniforme feito em brim grosso, de proposital cor laranja chamativa e listras em silk brilhante, emerge a suave aura da feminilidade. A moça que controla o tráfego é uma ode à beleza que impera sobre a brutalidade das máquinas que quebram o pavimento. Por detrás da névoa de pó de concreto e betume seco, a boca carnuda, rubra de sangue, dispensa batom. Os olhos de brilho intenso saltam da pele bronzeada e contornos bem desenhados. As luvas lamacentas, imagino, protegem as mãos de fada. Alheia ao meu voyeurismo, coreográfica e delicada, ela adestra a voracidade dos motoristas, ávidos por caminhos e chegadas. E, assim, caminha a humanidade, aqui, na metrópole 'never sleep', com sua dureza e seus encantos.

Maria Balé é escritora

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Comentários
  Leonel Prata
05/07/2016

Muito bom, Maria Balé! Continuo aguardando seu livro cheio de pérolas como a Pretty woman.
 
 

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