Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

A dor do acaso

Por Cinthya Nunes

Confesso que nem sei se o título desse texto é o mais adequado, até porque não sei se acredito no mero acaso. Posso dizer que creio ou busco crer que não estamos aqui nesse mundo como simples peões de alguma forma superior e cruel, relegados à própria sorte ou à falta dela. Assim, falar do acaso, diante das minhas convicções, é um tanto incongruente, mas preciso registrar que há momentos nos quais fica mesmo parecendo que a justiça divina perde a direção.

Nessa semana, em um dos períodos mais frios desse e dos últimos anos, um motorista de ônibus, por razões ainda desconhecidas, perdeu literalmente a direção e, após uma colisão, despencou de um barranco, levando consigo, se não estou enganada, outras dezessete vidas. Quando vi a chamada no noticiário da manhã, enquanto tomava meu café e me preparava para sair para trabalhar, senti um aperto na garganta ao pensar em quantas vidas, além daqueles que se foram, restaram destruídas. Com imensa tristeza eu concluí que para muitos pais e mães, esposas, maridos, namorados e amigos, os dias jamais serão os mesmos.

Muitas vezes, no apertado das horas, em meio a compromissos de toda ordem, perdemos o senso de importância, de relevo. Damos crédito excessivo ao que não importa e acabamos não tendo tempo para o que de fato dá significado à existência nesse plano terreno. Na cinza do tempo vão restando irrecuperáveis mensagens nunca respondidas, abraços inacabados, amores não verbalizados e milhares de sonhos inacabados. Crianças iludidas que somos, cremos que o tempo anda com as mesmas pernas limitadas que possuímos, esquecidos de que ele é um gigante velocista.

Não conheci nenhum dos jovens que morreram nesse trágico acidente, mas nos rostos deles, nas fotos divulgadas pela mídia, fui capaz de reconhecer as mesmas feições de tantos alunos para os quais tive o privilégio de lecionar. Repletos de sonhos, de planos, de vida e de futuro, de uma forma que só aos jovens é dado ser, tiveram suas vidas interrompidas em um dia qualquer, em mais uma dura prova de que a vida e a morte não se fazem anunciar. Sem arautos que pudessem tornar notória sua aparição, a dama de negro ceifou brotos que ainda não haviam amadurecido.

Resta para quem fica a dor de ausências que não podem e não serão preenchidas, ainda que o consolo venha aos corações. Cada passagem humana na terra é única, para o bem ou para o mal, é fato, mas é singular. Pura mentira a frase de que ninguém é insubstituível. Empresas usam esse clichê e lá até pode ser verdade, mas pessoas não se fazem substituir por outra em sua inteireza e essa é a maior dor desse mundo.

Nada do que se disser poderá ser capaz de aliviar a dor daqueles que estão agora pranteando um ente querido. Conforme a fé de cada um a dor pode ser maior ou menor, mas é impossível não se comover com esse e outros dramas. Na dinâmica da vida, ora somos plateia e ora somos protagonistas e isso é que assusta. Lembro-me nesse instante de um trecho de uma música dos Titãs segundo a qual “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” e concluo que nunca há distração suficiente para tal proteção, infelizmente. Qual o sentido desse acidente? Qual o sentido da vida? De fato, vivo buscando entender...

Deixo aqui minhas mais sinceras condolências às famílias enlutadas e rezo ao Criador para que acolha mais esses filhos em Seus braços e que console aqueles a quem restou a dor da perda...

Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras

Envie seu comentário:
Nome:*
Email:**
Comentário
Imagem de verificação

*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Marcelo Nunes | Design - Pat Duarte