Algo A Dizer
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Reflexões sobre o Poder

Por Sergio Antunes

Não sou dado a afirmações peremptórias. O melhor pastel é o da Barraca do Tanaka. Ou, a maminha mais saborosa é a do Bezerro Berrando. Muito ao contrário. Não tenho opinião formada a respeito de nenhum assunto que não esteja disposto a mudar. Mas, neste caso, não tem como errar. Repito, pois. Tudo o que o homem quer é o Poder. Ou, o Puderrrr, como dizem alguns.

Nesta altura não restaria nada mais a fazer neste espaço. A crônica começou com o fim. Podia pegar meu chapéu, se tivesse um e me despedir, ameaçando voltar na semana que vem. 

Persisto, porém. E, persistindo, exerço o Poder que tenho de continuar ou parar esta crônica, consciente de que o leitor exercerá a tempo e hora o Poder de parar de ler. Para aqueles que continuaram, prossigo. Afinal, todo mundo acha que todo mundo só faz é correr atrás de um grande amor ou de uma grande fortuna. O Poder seria uma simples conseqüência. Certo? Errado.

Não estou falando do infinito Poder do Presidente dos Estados Unidos. O planeta Terra dependendo de um gesto. Polegar pra cima ou polegar pra baixo. Igual nas arenas romanas. Hesitou, o planeta explode.

Nem estou falando do estonteante Poder da Marylin Monroe, que mexia os pauzinho, modo de dizer, para ser a dona do polegar referido no parágrafo anterior, simplesmente cantando Happy birthday, Mister President.

Não falo, também, do Poder do Papa, que sabe todas as declinações latinas. Ou do poeta federal que, no dizer de Drummond, tira ouro do nariz.

Falo, apenas, daquele poderzinho disponível nas nossas pequenas e miseráveis existências. Quer um exemplo?

Já viu na hora de estacionar o carro no shopping, descobre alguém de saída e encosta atrás esperando o cidadão se mexer. Aí ele se dá conta de que você está esperando ele sair e começa a arrumar o retrovisor do carro, o nó da gravata, o espelhinho de dentro. Ele sabe que tem total poder sobre você. Se ele não sair, você não entra.

E os pedestres que atravessam na faixa de segurança. Há uma certa atitude desafiadora, já notou, você ali num carrão esperando ele passar e ele anda mais devagar, certo de que, naquele espaço, naquele instante, tem o poder de parar o tráfego e o trânsito. Sic transit gloria mundi.

O mendigo briga com outro mendigo pelo Poder do cantinho mais quente do debaixo do viaduto, o chefe não anuncia a decisão que já tomou e a mulher não diz nem que sim nem que não. É o Poder.

O Primeiro tem Poder sobre o Segundo, o Penúltimo sobre o Último e até o Último tem Poder sobre todos os outros. Todos dependem dele para não ser o Último.

Deus, o Todo Poderoso, exerceu o Poder Supremo realizando a criação. E nós, criaturas, exercemos o Poder de, apenas, ser criaturas. Conscientes, porém, de que sem criatura não existe Criador. E aí está o nosso Poder.

Devo dizer, porém, que existem várias maneiras de exercer o Poder. Um juiz de direito que eu conheço, por exemplo. Não me trata como inferior, como é comum aos juízes com magistrite. Não. Me trata como se eu fosse igual a ele. Como se fosse. E deixa isto claro. Aí é que está. O Poder é não exercer o Poder. Condescendência.

Foi pensando no Poder que me lembrei desta história.

Era uma audiência criminal, eu advogado recém formado, tentando defender um pobre réu que batera o carro produzindo lesões corporais culposas na vítima. O juiz tinha magistrite e gostava de exibi-la. Na hora da audiência, a sala suntuosa do fórum, um jesuscristão na parede, a mesa do juiz em cima de um tablado para ficar mais alta, chamam a testemunha. Esta, coitado, parecia um coelhinho de parque de diversões quando soltam o bicho. Não sabia pra onde ir. Aí o promotor, sentado do meu lado, sujeito simpático este promotor, carequinha, orelhas de abano, dentinho separado, olhou pra pobre testemunha e suspendeu e abaixou a sobrancelha, à guisa de cumprimentar. A testemunha, envergonhada, riu amarelo. Então, veio o Poder, a magistrite: “qual a graça?”

A testemunha, coitado, se desanuviou, estendeu o braço em direção ao juiz e oferecendo a palma da mão respondeu: “Miguel Cúpari, seu criado”.

Sergio Antunes é poeta e escritor
Contato: sergioantunes@ig.com.br

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Comentários
  Roberto Haquim
02/07/2016

Ótima crônica Sérgio. De fato, o poder empodera os despoderados... um abraço.
 
  Vera Ribeiro
02/07/2016

Gostei muito da crônica. E me diverti com o estacionamento do shopping: todos nós já passamos por isso. Há piores, aqueles que vão checar o celular, as mulheres que vão refazer a maquiagem e por ai vai.
 
  Vera San
29/07/2016

Realmente maravilhoso, diariamente passamos por todas estas situações.Sobre a faixa de pedestre; perfeita.
 
 

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