Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Ela & Ele

Por Valéria Lopes

Desde que chegaram ao rancho, ela insiste que ele aprenda a andar de bicicleta.

— Nunca aprendi. Não vai ser agora, depois de burro velho...

— Ah, vamos! Eu ensino você. É uma questão de equilíbrio.

— Tá bom, branquela dos diabos, faço tudo pra te ver sorrindo.

Sob a luz suave do galpão, ele vê as bicicletas empoeiradas enroladas a uma corrente e presas a um cadeado.

— Ih, estão com cadeado, não vai ser possível...

— Deixe de ser bobo, – ela tira um chaveiro do bolso do short – olhe aqui a chave!

— Ai, meu Deus, quando você cisma com uma coisa... Cadê as rodinhas?

— Rodinhas?? Um homão desse tamanho! Eu te protejo, vem!

— Me diz como se anda nessa geringonça, então!?

Ele monta na bicicleta, enquanto ela engata as instruções:

— Mire um ponto fixo ao longe e não olhe para baixo. Se perder o equilíbrio, ponha os pés no chão e se equilibre novamente. Não tem mistério.

— Então, vai lá, ao longe!

— Não! Vou, ao seu lado, qualquer coisa, te seguro.

— Mas, você é o meu ponto fixo, amor!

Ela sorri e lhe beija os olhos. Ele sai pedalando, todo desengonçado, mexendo o guidão de um lado pro outro, zizuezagueando pelo chão de terra batida. Ela corre, ao seu lado, ofegante, ditando coragem:

— Isso!!  Olhe pra frente. CUIDADO!! O buraco, desvie! Muito bom!

— Eu vou caiiir! – grita desesperado.

— Já tá andando, grandalhão! Viu, como é fácil? Espere. Vou pegar a outra bicicleta.

E saem pedalando devagar pelo descampado. Ele, meio torto. Ela, em equilíbrio.

Quando chegam próximos ao rio, deixam as bicicletas e correm até a margem. Sentam-se à sombra de uma árvore.

— Sabe que ninguém nunca se preocupou em me ensinar a andar de bicicleta?

— Ora, nem precisava, você saiu andando... Quando se é criança, é bem mais difícil.

— Difícil, nada! Tem as rodinhas.

— Hoje é o dia mais feliz da minha vida, sabia?

— De nossas vidas, meu amor!

— Ah, uma coisinha: o senhorito ainda vai me ensinar a pescar...

— Icha! Acho que não vai ser possível.

— Ué, você trouxe um monte de apetrechos! Tem um tal de molinete, tem rio, tem peixe, tem luar, o que falta?

— O que falta?? Ora, falta eu aprender pra poder ensinar.

— Como assim?

 — Eu não sei pescar, amor! Quis te impressionar, apenas. Não ria, mas tenho até medo de pegar na minhoca.

— Ué, e aquela foto com um Dourado de olhos esbugalhados de 12 kilos que você segurava todo prosa?

 — Mentira. Quem pescou não fui eu. Usei o peixe como figurante. Pra falar a verdade, aquele peixe voltou até pra água.

— Não a-cre-di-to, que você foi capaz de...

— Tá brava, comigo?

Ela finge que amarra a cara, mas logo se vira, sorrindo:

— Lógico que não! Acho que nem gosto de pescar, mas faria qualquer coisa pra ficar com você. Prefiro beijinhos e sussurros a escutar o silêncio de uma pescaria frustrada.

Aliviados, os dois soltam uma gargalhada.

Ele fita seus olhos e segura seu rosto com as duas mãos. Ela o olha docemente, enquanto a água do riacho brinca de correr entre as pedras, fazendo um ploc-ploc refrescante.  Os raios de sol atravessam os galhos da árvore, iluminando o abraço profundo e o longo beijo que trocam.

— Vamos voltar pra casa? – ele lhe pede, com um sorriso largo – Quero te amar, te amar e te amar...

— Rãrã. Eu também, eu também, eu também...

— Não vamos montados nessa coisa, não, amor.

— Ora, por quê? A gente chega bem mais rápido.

— Vamos devagar, conversando, aproveitando o tempo que estamos juntos. Você sabe que amanhã...

— Eu sei. Amanhã, voltamos à realidade. Como não saber? Sinto um aperto, comprimindo meu peito desde que chegamos.

 — Então, não pensemos no amanhã, minha flor! Falando em flor, se tivessem flores por aqui, lhe daria uma.

— Estamos no outono, se esqueceu?

— É verdade. Pra mim, todas as estações deviam ser de flores.

Chegam ao galpão, guardam as bicicletas, passam as correntes e o cadeado.

A tarde se vai no horizonte, o sol perde as forças para a chegada da lua.

— Daqui a pouco, o céu fica pintado de estrelas, não haverá espaço suficiente para tantas... – Ele diz, emendando a canção de suas vidas.

— Sua voz é linda, meu encantador de luas.

— E seu sorriso me encanta, fada dos sonhos!

— Hoje, não é sonho. Quantas vezes, tive meu coração fora do peito e acordei cansada porque naveguei por telas, subi ladeira, desci ladeira, atravessei rios e vales, fugi de gente, cavalguei, rolei pela grama e, quando o via através dos tempos, eu acordava.

— Nossos sonhos nunca se encontraram, mas acreditava que um dia pudesse ser de verdade.

— Hoje, não há névoa nem fumaça nem nada que nos leve de nós. Não há o impalpável. Você existe e está aqui na minha frente.

— Existo porque você existe. – ela lhe sorri um riso tão grande quanto o céu que os abriga naquele momento.

— Olhe a lua tão alta e toda nossa... Acho até que posso tocá-la.

— Eu também.

Os dois erguem os braços na direção da lua e quando seus dedos chegam bem perto do farol iluminado, ela acorda.

E lá se vão o sorriso e a alegria em mais um sonho, mais um dia distante da vida que queria para si.

Valéria Lopes é escritora

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Comentários
  Maria Lindgren
06/07/2016

Sonhar faz um bem enorme, Sobretudo, se depois sai um conto bonito como este. Maria Lindgren
 
 

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