Algo A Dizer
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Na segunda lâmina do espelho

Por Alexandre Brandão

Eu tenho medo de tigres – medo que não me protege de nada, não ando onde andam os tigres. Nem entre elefantes – e destes não tenho medo. Amo elefantes e tigres sem precisar andar no meio deles. Medo, de verdade, cotidiano, eu tenho é de lagartixa, vai entender isso. Mas igualmente amo as lagartixas, tão importantes no controle dos insetos. Não uso repelente, preciso das lagartixas, mas, por temê-las e sem deixar de amá-las, delas não gosto.
Eu enfrento a escuridão, desde criança eu a enfrento. Quando transito por uma escuridão de verdade, não por uma metáfora das trevas, posso manter os olhos fechados ou abertos, é indiferente. No dia em que morre alguém do meu afeto, caminho de olhos abertos pela escuridão, certo de que, assim, só verei o que estiver vivo. Não quero encontrar os mortos, embora deseje muito reencontrar os meus mortos. Nalgum dia.
O jogo que gosto é o pingue-pongue, cuja bolinha nunca está ali nem está lá, embora às vezes ela caia à minha esquerda, às vezes do lado oposto. Quem sabe da vitória e da derrota são os jogadores, a torcida sabe da bolinha, que não está ali, mas ali já esteve, e não está mais lá, ainda que lá já tenha estado. Eu sou a bolinha. A raquetada é a vida.
Quando assobio, salvo ao menos um gomo de cana. Quando chupo cana, os pássaros pialham de alegria. Nas horas em que nem assobio nem chupo cana, o que faço ou deixo de fazer é feito um vento no canavial, e um vento no canavial, cante ou não cante um pássaro, é um vento no canavial, nada além disso, como diria Caeiro.
Nunca andei num relógio, mas um amigo sim. Ele rejuvenesceu uma hora, por caminhar em sentido anti-horário, e, pelo mesmo motivo, envelheceu uma vida. De minha parte e por destino, só envelheci uma vida. Ele morrerá uma hora mais moço que eu.
A única certeza que tenho é que não me chamo Raimundo. Com isso, atravesso as ruas e peço um pingado no botequim. Não é pouca coisa, mesmo que o pingado seja servido frio ou que eu quase tropece num descuido da rua.

Dia 13 de dezembro Alexandre Brandão lança seu mais novo livro, O Bichano Experimental (Editora Patuá), no Espaço Oito e Meio (Travessa dos Tamoios, 32, loja C – Flamengo – Rio de Janeiro). Veja o evento no Facebook.

Alexandre Brandão é escritor, autor de O bichano experimental (Editora Patuá, 2017). E também de Contos de homem (Aldebarã, 1995), Estão todos aqui (Bom-texto Editora, 2005),  A câmera e a pena (Editora Cais Pharoux, 2009) e Qual é solidão (Editora Editora Oito e Meio, 2014). http://www.noosso.blogspot.com

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Comentários
  luca
06/12/2017

Gosto muito de suas crônicas nada convencionais, mas muito imaginativas (e nem sempre leves) meio na base do "dee-me o supérfluo que eu abro mão do essencial". Esta está mais para "samba do criolo doido", puro sobrinho da Tia Zulmira (a Ponte Preta caiu!). Você abandonou o sensitivo Caeiro no canavial (que, segundo o Chico, este país ainda vai ser) e matou o amigo uma hora antes pra ele aprender a dar o passo certo no sentido horário. Com certeza nada disso é pouca coisa! Abração!
 
  Alexandre Brandão
27/12/2017

Luca, puxa, só agora vi seu comentário, e que comentário. Aprendo muito com sua leitura. Obrigado e feliz 2018!
 
 

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