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Azuis novembros

Por Cinthya Nunes

Assim como se faz nos meses de outubro, nos quais há campanhas e movimentos para a conscientização da prevenção do câncer de mama, os meses de novembro são dedicados à tentativa de convencer os homens a fazer o exame de próstata, a fim de prevenir e diagnosticar para tratamento precoce, o câncer.

Pesquisas demonstram que a chances de cura para o câncer de próstata que seja descoberto no início são muito reais ou promissoras. Como exames de sangue aliados a um exame de toque, tudo muito simples na verdade, muitos homens, pais, irmãos, filhos e amados por outras pessoas teriam suas vidas salvas.

O que, portanto, impede ou inibe tantos representantes do sexo masculino a se submeterem a um simples exame? Acredito que seja um conjunto de vários fatores e não de uma única coisa isoladamente. Primeiramente, segundo me parece, os homens, ao menos os de gerações mais antigas, estão menos acostumados a procurar, por iniciativa própria, médicos ou tratamento para os males que os afligem. Na grande parte dos casos, uma simples ida ao médico só é possível porque alguém que com eles se importa tomou a frente das coisas e foi atrás.

Não tenho conhecimentos antropológicos ou mesmo psicológicos necessários para afirmar as razões disso, dessa falta de atitude, mas tenho comigo, pela minha experiência de vida, que se não no todo, em parte se deve à forma como muitos homens são criados. Vejo muitas mães que simplesmente não educam seus filhos para serem autônomos, independentes, mas para serem servidos.

Ocorre que o mundo hoje não é mais o mesmo e, aos poucos, ao menos nas sociedades ocidentais, as mulheres estão perdendo a tolerância para os “homens-filhos”. Ninguém dá conta, não de forma saudável, de viver para si, plenamente, e ainda ter que se encarregar do outro. Por óbvio que não falo aqui da relação que os pais têm com seus filhos crianças, legitimamente dependentes, ou ainda de outras situações de real dependência, seja por questão de incapacidade física ou mental.

Refiro-me, em outras palavras, àqueles que são incapazes até de arrumar a própria cama, de arrumar seus armários, de lavar o que se sujou e, de modo geral, de cuidar de si mesmo, por pura alienação ou folga. Pior ainda aqueles que se acham no legítimo poder de apenas esperar que outros façam aquilo que deveriam se incumbir.

Assim, infelizmente, muitos homens simplesmente não cuidam da própria saúde, sem que haja alguém que os motive ou leve a isso.  Registro que só me refiro a eles nesse texto por conta do viés escolhido, mas o fato é que muitas mulheres também se comportam da mesma forma, ainda que em menor número.

Outra questão que, segundo me parece ser a causa pela qual os vários homens se negam de forma veemente a realizar o exame de toque na próstata se relaciona a tabus sobre a sexualidade. Como isso, a realização de um exame, fizesse de alguém menos homem. Não passa de um procedimento médico, realizado de forma profissional e que dura poucos minutos. Óbvio que pode ser meio constrangedor, e disso as mulheres entendem desde muito cedo, eis que são submetidas a toda sorte de exames ginecológicos, mas tudo é uma questão de se encarar com naturalidade e, para ficar ainda mais leve, com uma boa dose de humor.

Fazer piada de determinados assuntos não é despreza-los necessariamente. Em alguns casos, como nesse em comento, pode ser a diferença entre viver e morrer, na medida em que se pode optar por ver as coisas pelo seu lado mais engraçado, menos pesado e, com isso, dar menos valor ao que assim deve ser visto.

Admiro os homens que, diante da inevitabilidade do exame, saem de lá convictos de que fizeram a sua parte, foram homens no melhor sentido da palavra e isso em nada, absolutamente, refere-se à sexualidade vivida. É preciso coragem para se reconhecer frágil, para enfrentar as barreiras que fatores como o avançar da idade vão sendo colocadas diante do caminhar.

Aos representantes do sexo masculino, machões ou não, fica a dica que muito mais vale um dedo amigo do que uma mão na alça do caixão. A coisa toda pode virar piada, mas o câncer de próstata está longe de ter graça, sobretudo para quem almeja viver muitos outros novembros...

Cinthya Nunes Vieira da Silva é advogada, professora universitária, cronista e membro da Academia Linense de Letras

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Comentários
  luca
06/12/2017

Um belo recado dado (e dedado). Desde sempre ouço recorrentemente que prevenir é melhor que remediar!
 
 

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