Algo A Dizer
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Dasdô

“Essa Nega Fulô!
Essa Nega Fulô!”
Jorge de Lima

Por Assionara Souza

E como é que se vive torto, fortuito, assim? Se vive. Um remédio atrás do outro. Se vive. Curando pra não morrer. É só lembrar de Dasdô. Uma doença vera, a dela. E o meu chega a nem ser mal tão grande assim. O nosso. O dela, sim.

Arrancar a cabeça. Arrancar o coração. Nunca mais tanto susto. Pulso oscilante. Quase apaga! Perna fraca. Essas duas tão brabuletinha. Cuido, com muito gosto. E só. Que Dasdô, embora risse que se partisse bem quieta, não gastava fala. Lembra? Lembro. Nossa mãe até fez uns paninhos pra ela tratar da regra. E outros aviamentos. O que sobrasse, ia pro remédio. Tão caro!

Essas duas. O que são delas? Somos.

Que é de Dasdô?

O telefone toca. Você me diz que tingiu o cabelo de vermelho. E eu vou lá na última imagem. Atualizo a lembrança. Saudade. Lembra? Lembro. Aquele quadro antigo na casa da nossa avó. O colar. O batom. E até o paletó. Artifícios tão verdadeiros. Nós, cada uma, de mãos dadas com Dasdô.

Nossa mãe compareceu demasiado. Um sabonete Phebo. Minâncora pro cheiro forte. E até blusa com cianinha. O amarelo no preto que era a cor de Dasdô. A gente achava lindo! Aquele riso alvejado. Lembra? Lembro. Dasdô passou água sanitária nesses dentes. Foi? – nosso pai. É carvão, Seu Luís. E ia rir. Se escondida.

A primeira crise veio. Nossa mãe agüentou firme. Cambada de ignorante. Jesus Cristo é maior. Diziam que Dasdô baixava isprito. Depois ela ia voltando mansa. Se sente, Dasdô. Sinto. O modo de nossa mãe nos educar. Um respeito tão grande. Mãe, ela fede. Com o tempo, justo aquele cheiro nos fazia dormir.

Só pode ser isso. Você quieta do outro lado da linha. No dia do aniversário. Me conte, mulher. “Eu pra eles agora sou importante” – palavras suas. Os descaminhos. Lembra? Lembro. Um baile na emissora. Você quer ir. Pois você vai, Dasdô. Nossa mãe fez um vestido ornado com cambraia bordada. O carro passava anunciando. Conjunto vindo de fora. Dasdô corria com a gente lá fora. A gente quase era uma. Tanto ela apertava. Embalava. Cantava sem abrir a boca. E a gente é uma. Nós. Você. Eu. Essa vida errada. Quer? Eu recebo o seu filho aqui. Nesta casa impraticável. Livros e mais livros. E sorrisos adiados. Remédios engolidos com lágrimas. Se você quer. Educamos, sim. Mas é seu. Como éramos e somos e seremos. Sempre de nossa mãe.

Dasdô ia. Dasdô voltava. E ria. Como ela ria! Beijava as mãos de nossa mãe. Vai, Dasdô. Não remanche. Cada música que o vento trazia, pensávamos em Dasdô. E se Dasdô. O baile nos adormeceu. Lembra? Lembro. Da sua coleção de pulseiras coloridas. Sempre que você sonhava, eu sabia. Olho brilhante. E a cantiga das pulseirinhas de um braço pra outro – que sobravam!

Mas no outro dia. Nada de Dasdô. Nossa mãe aflitiva. Juntando conversas de todos que estavam no baile. Tanto tempo. Eu sei. Sabemos. O que não se explica é em que parte de nós isso fica. O que somos. Porque é nela que penso. Muita vez. Nem é tão grande esse meu mal assim. Nosso. Mas sufoca. E enterra tanta alegria.

Nossa mãe tão forte. Contra o vento. Contra todos. Um moço levou Dasdô lá pra banda do rio. Boa Passagem. Depois do Cemitério. Fomos. A boca cheia de areia e baba. Acuada. Tanto sangue. Nossa mãe pediu. Fomos jogar pedrinhas no rio. A sua ia três vezes. E de vez em quando eu virava. E via. Nossa mãe abraçada a Dasdô. Abrindo a bolsa amarela. Limpou toda Dasdô. Trocou sua roupa. Enrolou-a no lençou. Lembra? Lembro. Você me olhou séria e com raiva. Se eu ria que Dasdô tropeçava com nossa mãe. Entendi. Hemorragia. Uma palavra nova pra mim. Aceito, sim. Seu filho aqui. Flagrando essa teagonia. Cada dia. Seríamos tão felizes. Mas se fôssemos. Não seríamos. Somos.

O moço sumiu. Ninguém nunca mais viu. Tanto bem que Dasdô ainda lhe quis. Depois, passos leves. Talco Johnson & Johnson. Uma menininha pretinha. Lembra? Lembro. Do licor de maracujá naqueles copos bonitos de nossa mãe. Como corríamos da escola pra casa! Que fazia tanto sentido. Estar lá. E ver. Nossa mãe. Dasdô. A mãozinha vermelha do nosso bebê de Dasdô. Cadê? Quem levou? Dasdô voltou embora pra Baixa Verde. Cidade grande não é lugar de criar filho.

Sim. Mande o seu filho. Um dia.
Assionara Souza é professora e escritora, autora de “Cecília não é um cachimbo” (7Letras, 2005)
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Comentários
  Letícia Palmeira
20/01/2009

Leio sempre o blog Cecília não é um cachimbo e agora leio este conto e é do Brasil. Pasmem. Ainda se tem a idéia de que textos (sejam contos ou crônicas) devam estar todos organizados e as palavras bem empilhadas. Ainda existe gente que pensa assim. Ainda bem que existe gente que escreve como você, Assionara. Porque faz criação e não cópia.
 
 

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