Algo A Dizer
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A senhora Domingas

Por Cairbar Garcia Rodrigues

Cara senhora Domingas. Sei que a senhora tem falado coisas de mim. Tudo bem, que é seu costume falar de todo mundo, dos vizinhos, do padre, do açougueiro, do dono do mercadinho, da dona Rosa costureira, do governo... desse pode. Mas falar que eu sou só meio homem! Aí a senhora pensa que está chutando cachorro morto, mas está é metendo o pé num puta dum leão daqueles bem brabos. E só por causa que passo base nas unhas e uso cabelos compridos e shorts meio curtos? Ora, dona Domingas, vê se apruma o passo ou vai cair um tombo feio. A senhora ainda nem tem cinquenta anos, mas sua língua já falou tanto que até pode se aposentar por tempo de serviço.

Eu não entendo como uma mulher bonitona como a senhora, conservada, ainda no jeito da gente se atracar na cama... se quiser, gasta seu tempo falando essas papagaiadas todas. E eu até nem devia, mas vou lhe explicar uns negocinhos: Eu passo base nas unhas porque gosto de arranhar um violão e sem isso elas se quebram facilmente. Uso cabelo comprido porque estou ficando meio careca e sigo a lei da compensação. E o short comprido é por causa do calor infernal (se pudesse andava era pelado mesmo, balangando o bonitão). E além de tudo tenho umas pernas bem bonitas, de macho, mas bonitas.

Mas sabe o que a senhora está precisando? É vara. Isso, vara, anzol, isca e um bom rio prá dar umas pescadas. Daí eu aposto que vai se distrair, desestressar e falar menos mal dos outros.

Eu até gosto um pouco da senhora. De verdade. Até a comeria, e de graça, sem cobrar nada, nadinha mesmo. Mas eu tenho um pouco de medo da hora do beijo. Vai que sua língua me passa uma doença incurável. E já pensou na hora da oralização? Tenho um medo danado de perder o fulano aqui. Gosto muito dele, que já está meio acabrunhado, displicente, negligente... coisas da idade, mas que não enjeita trabalho. E também não vai atrás de qualquer buraco porque não gosta de vestir essas roupinhas de plástico com um saquinho na ponta.

Eu queria falar tudo isso pessoalmente, mas fiquei receoso, porque se a senhora começasse a soltar a matraca eu ia ficar pelado na sua frente e olhar na sua cara com cara de tarado. Claro que ia ser um deus-nos-acuda. Mas também podia ser que a senhora me agarrasse e tivesse intento de me estuprar. Aí só vendo prá saber no que ia dar. Eu não tenho a mínima idéia. Mas dependendo do que vai dizer depois desta carta a gente pode até pensar, hem, hem? O que acha? Seu marido já morreu mesmo.

Por hoje é só isso. Um beijão prá senhora.
Cairbar Garcia Rodrigues é poeta e escritor
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