Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Duas faces da mesma medalha

Por Douglas Naegele

Todos nós sabemos que o tráfico de drogas está enraizado nos morros e nas comunidades de baixa renda do Rio de Janeiro e de São Paulo. É claro que existem exceções, mas são tão poucas que nem sei se entram em alguma estatística... Entretanto, o fato é que, quando se tem uma tropa, uma companhia militar, um batalhão, ou, como é o caso, um bando de jovens fortemente armados, com um mínimo de organização, tem de se levar a estes “soldados”, diversão e entretenimento. O Pentágono compreendeu isso já na década de 1950. Por isso, artistas foram levadas para as chamadas “zonas de conflito” a fim de entreterem a tropa durante as últimas guerras em que as forças estadunidenses estiveram envolvidas. Os Estados Unidos levaram Marilyn Monroe (na Guerra da Coréia), Jane Fonda (na Guerra do Vietnam), Mariah Carey (na Guerra do Golfo), para cantarem e se exibirem para seus soldados... Isso somente para citar algumas, que fizeram esse tipo serviço “pelo bem da América e pela democracia”. Mas isso já é outra conversa que poderemos abordar em outro momento...

Aqui no Brasil, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, DJs e MCs e “equipes de som”, como a Furacão 2000, Pipo’s e Cash Box, volta e meia, se apresentam nas favelas e comunidades carentes. Os chamados “Bailes Funk” são, de mesmo modo, uma forma de entretenimento levado a essas comunidades pelos chamados “donos”, ou seja, os chefes do tráfico local. Sem qualquer tipo de crítica, apenas querendo mostrar os fatos, quero lembrar que os “soldados do tráfico” não podem se expor nas ruas da cidade, no asfalto, nos shoppings, etc. Mesmo por que, podem sofrer represálias da polícia, ou de outra facção criminosa... Logo, se eles não podem sair para se divertir, a diversão tem que ir até eles...

Entendido isso, percebe-se logo, que existe um rol de necessidades que estes mesmos “soldados” têm e que, obviamente devem ser supridas, ou seja, já que não podem fazer compras de supermercado, de roupas, tênis, jóias, remédios e tratarem de seus feridos, então alguém tem que fazê-lo... E é nessa hora, que entra a atuação feminina! Elas podem sair livremente das comunidades a hora que quiserem, fazerem compras, cozinharem, trazerem medicamentos para os feridos, sem que esse tipo de atividade levante qualquer tipo de suspeita... E esse é o lado humano da coisa, social se preferirem, pois até mesmo o mais cruel bandido do tráfico, tem sua namorada, amante, esposa,ou companheira... As quais servem a estes “soldados” por amor ao seu homem. Isso mesmo! Amor ao homem que escolheram viver ao lado. Não cabe aqui analisarmos quais são suas motivações, apenas compreender que assim como todo ser humano, os relacionamentos também prosperam dentro do submundo do tráfico de entorpecentes. Sabemos que existem casos das chamadas “Maria Fuzil”, moças que sentem atração pelos “soldados do tráfico”, quase todas pertencentes às classes médias urbanas, que escolhem a vida bandida para tristeza de seus familiares e espanto da sociedade.

Mulheres, sempre serão mulheres. Amarão intensamente seus consortes em qualquer camada social. E por eles, muitas das vezes, estarão dispostas a tudo! E por mais infame que possa parecer, para conseguirem visitar seus namorados, amantes, maridos e companheiros, nas cadeias do Rio de Janeiro, não se importarão de favorecer sexualmente policiais, carcereiros e agentes do sistema correcional. Em alguns casos, esses mesmos servidores públicos, que deveriam estar cuidando da segurança dentro de nossas instituições carcerárias, além de se servirem dos favores sexuais dessas mulheres, exigem que elas tragam certa quantidade de dinheiro ou de drogas para que a vida do namorado, amante, marido ou companheiro seja facilitada dentro do sistema correcional. Na maioria das vezes, essas mulheres, são encaminhadas para casas de prostituição, as chamadas “termas” de baixa-renda, geralmente localizadas, aqui no Rio, na famosa “Vila Mimosa”, onde o valor do “programa” varia de R$ 1,99 até R$ 20,00! Vale lembrar que a “Vila Mimosa” têm segurança particular, exercida por policiais civis e militares em horários em que se encontram de folga dos quartéis e delegacias.

Toda via, como se não bastasse tudo isso, existe ainda um lado mais sujo, imundo mesmo, que envolve a vida dessas mulheres. Esse lado está diretamente ligado a uma equação social, talvez até “natural”, dado o grau de pobreza e desamparo em que elas vivem. O que eu quero dizer é que existe uma quantidade de mulheres que acaba sendo cooptada para o tráfico de drogas, seja pela pobreza e miséria a que estão sujeitas, seja pela dependência química que elas acabam por desenvolver devido ao uso contínuo do químico. Assim sendo, numa relação obvia de oferta e procura, algumas passam a fazer parte do “movimento” não só como logística, mas como “vapores” (vendedoras), olheiras, “soldados”, podendo até chegarem a “gerentes” do tráfico. Ou seja, elas passam a disputar com os homens o “mercado de trabalho” do tráfico de igual para igual... Ocupando os espaços deixados por seu maridos, amantes, namorados e companheiros que morreram ou foram presos pela polícia, pois não existe “salário desemprego” para “soldado do tráfico” e alguém tem que sustentar seus filhos...

As mulheres que escolhem se tornar membros da hierarquia do tráfico, em sua maioria jovens, acabam ascendendo rapidamente, pois além de serem mais organizadas, são frias e cruéis, beirando as raias da insanidade, já que não titubeiam quando devem exercer sua “autoridade”, eliminando seus adversários dentro da própria “organização” do tráfico, bem como dentro da comunidade em que vivem. Impiedosas e temidas, essas mulheres agem sem a menor hesitação. Diferentemente que se possa pensar, essas mulheres não são masculinizadas, muito pelo contrário, são moças que se vestem de modo sensual, muitas são mães de filhos, outras até são casadas com homens que não têm qualquer envolvimento com a “profissão” delas. E é isso que nos horroriza ainda mais!

Além, dessas moças e mulheres que acabam se tornando parte integrante do tráfico, existem ainda, algumas em situação bem mais degradante. São conhecidas nas comunidades como “boqueteiras do tráfico”, ou seja, jovens que se prostituem para obterem uma pequena quantidade de drogas e uma irrisória quantidade de dinheiro. Essas não adquirem “respeito” junto aos moradores, ou dentro da hierarquia do tráfico, justamente por isso, acabam sendo execradas tanto pela comunidade, quanto por aqueles que usam de seus corpos para se satisfazerem. Assim como na zonas de guerra, essas mulheres são consideradas lixo, pois após fazerem o “serviço”, são expulsas do lugar onde se prostituíram à base de agressões físicas e verbais. Esses encontros se dão geralmente em uma viela, num beco ou um casebre nas imediações do ponto de venda. O sexo é feito de forma rápida e violenta, apenas para a obtenção de prazer dos que pagam pelo “serviço”, em que faz parte o chamado “esculacho” após o ato. “Esculacho”, significa xingamentos, ofensas e agressões, aos quais essas mulheres se submetem por escolha própria. Já faz parte do “serviço”. Se perguntadas pelo motivo que as levam aceitar tais maus-tratos, muitas riem, outras desconversam, mas o que poderia parecer falta de oportunidade de trabalho, na verdade encobre uma escolha pessoal. A principal argumentação é que elas não se sentem com a menor vontade de exercerem um trabalho comum, como empregadas domésticas, balconistas, atendentes ou qualquer outro em que tenham um patrão ou patroa. Dizem que preferem a “liberdade” de fazerem o que quiserem com quem quiserem. Falsa ilusão. Quem aceita esse tipo de “trabalho”, como sabemos, não é livre e muito menos, não tem patrão!

Essa denúncia, em si, em nada é nova, mas o que deprime é sua própria existência...

Mulheres marginais, bandidas, assassinas, não são novidade na história, muito menos mulheres que se prostituem para obtenção de drogas. Todavia, o crescimento desse tipo de atividade é de responsabilidade direta de nossa sociedade, a qual se mantém omissa hipocritamente, culpando o governo ou as autoridades pela existência da própria degradação humana... Não fazemos nada! Apenas, nos horrorizamos...

Duas faces de uma mesma medalha que nós, acastelados em nossas vidas cotidianas, não forçamos sequer nossos representantes eleitos, tanto na cidade, no estado, quanto no Congresso Nacional, a fazerem qualquer coisa. Isso porque não nos afeta diretamente. Não está visível nas ruas limpas e iluminadas na Zona Sul, nem bate às portas das escolas bem montadas em que nossos filhos estudam. Aliás, nós sequer nos importamos com as vidas que nossos porteiros, zeladores, babás e domésticas se sujeitam depois que deixam o nosso convívio!

Não fará a menor diferença eu ter escrito esse artigo ou não. Pois, mesmo que alguns de nós se sensibilizem, outros se estarreçam, não conseguiremos modificar instantaneamente o que continuará acontecendo no momento em que este artigo for lido. Seja de manhã, à tarde, à noite ou em plena madrugada, tudo continuará ocorrendo do mesmo modo como disse acima. Gostemos de saber ou não...
Douglas Naegele é teólogo e psicanalista, responsável pelo site: Douglas Naegele: Psicanálise e Teologia - Um olhar junguiano (www.douglasnaegele.com)
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Comentários
  FRMendes
20/01/2009

Rapaz, salta desse bonde. Ele não vai te levar a lugar algum. Que Cidade você está vivendo?
-Eu quero um Nick... manda a Maria Fuzil pegar um no Shopping Leblon. Te cuida! porque as mulheres vão te pegar.
 
  FRMendes
20/01/2009

acabei de ler a poesia do Flávio Araújo:
A Graça da Desgraça.
Quanta atualidade e oportunidade
Parabéns Flávio, você é uma poeta que merece respeito.
 
 

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