Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

E aí? (Um desabafo)

Por Glecy Naegele Barbiratto

Fim de ano. É tempo de se pensar, repensar sobre o que realizei, experiências adquiridas, avaliar resultados – sucessos ou fracassos.

Esse movimento me fez levantar alguns questionamentos em relação à aplicabilidade de teorias, sejam elas pedagógicas ou psicológicas, ao lidar com o outro.

Quando li algumas dessas teorias e os exemplos citados por seus teóricos, sempre os achei muito “lógicos” e ficava em dúvida se realmente na prática seriam válidas. Atualmente tenho clareza que a prática é muito diferente que a teoria e que temos que discernir o quê fazer e como a cada nova experiência.

As crianças, com as quais tenho trabalhado, têm me ensinado e mostrado essa realidade: vivem expostas ao risco diário, de um confronto armado (cujos protagonistas prefiro não nomear); são oriundas de núcleos familiares desfeitos, desconhecem o pai ou este já morreu tragicamente ou é um daqueles protagonistas não citados acima; algumas são criadas por avós. E, na grande maioria, as famílias a que pertencem pouco se interessam por elas, por seus desempenhos escolares, saúde, e tudo mais.

Essas crianças freqüentam escolas públicas municipais, que deveriam responsabilizar-se por suas aprendizagens e encaminhar aquelas que apresentassem algum distúrbio para o devido tratamento, exigindo da família a comprovação da sua realização. Pena que isto é querer muito, que não acontece, é claro. A escola pode até encaminhar, mas se a família não leva a criança para o devido tratamento, nada acontece.

As autoridades escolares e os senhores secretários de educação e prefeitos, não se interessam em fazer cumprir a Lei, será que sabem que existe?

Sabem sim inventar as “benditas” aprovações automáticas, e não possibilitarem contratações de professores para o acompanhamento daqueles que não atingem os objetivos de cada ciclo. Sabem sim permitir que professores dobrem as cargas horárias, trabalhando em dois turnos e, às vezes, com quarenta ou mais crianças em cada turma, ficando ao final do dia estressados e sem motivação – face ao valor dos seus – para realizar e cumprir com eficiência e eficácia seu trabalho.

Há alguns anos convivo com esse público infantil e por isso o meu questionamento inicial, e aí? O que fazer com nossas belas teorias, frente ao caos acima citado. Como conseguir ajudá-los a conviver com isso e estimulá-los a resolver suas dificuldades escolares e motivá-los a aumentar suas baixas auto-estimas?

Bem, livrá-los do ambiente de violência em que estão inseridos não é possível. Resolver suas questões familiares muito menos. Modificar as instituições escolares, quem sou eu? De promessas políticas, estou cansada! E aí?

Sempre gostei de desafios e fui à luta. Tracei para mim o objetivo de ajudá-las, naquilo que pudesse, principalmente na aquisição da leitura e da escrita – que considero fundamental para o início de suas vivências de aprendizagens, e na elevação de suas auto-estimas, motivando-as a entenderem que poderiam adquirir autonomia e construir um futuro melhor para elas. Se pensei em teorias? Não. Apenas deixei fluir de mim para elas o melhor de tudo que aprendi e de mim!

E ai, quando penso – repenso, verifico que tem valido a pena a minha luta. Sei que, em alguns casos, como dizem alguns PERDI, mas na maioria GANHEI. Sim, ganhei, porque o sucesso delas para mim foi o meu sucesso. A felicidade que alguns demonstravam, quando conseguiam ler e escrever uma pequena palavra, frase ou texto, e vinham correndo me dizer: “Tia, eu já sei ler... escrever”, era (e sempre será), uma alavanca para que eu continuasse. E quando conseguiam um MB (muito bom) nos conceitos escolares? Os sorrisos delas ou o brilho em seus olhares, nada poderá apagar ou ofuscar de minha memória.

Fizemos a nossa parte, e aí?

Em 2006, iniciamos o Projeto Construindo o Saber e, como sua coordenadora técnica, ao analisar a relação de inscritos, deparei-me com crianças com idades entre 10 e 11 anos e que estavam inseridas na “PROGRESSÃO”. Descobri tratar-se de uma série criada para aqueles que não tinham sido alfabetizados na época devida e que estavam em faixas etárias a partir de nove anos, idade máxima prevista para a inserção na terceira série. Uma espécie de LIMBO! Se conseguissem aprender, tudo bem; se não, tudo bem também!

Ao iniciarmos nossas atividades verifiquei que as referidas crianças desconheciam a leitura e a escrita, ou mal as conheciam, Nosso objetivo principal era o de reforço escolar, mas reforçar o quê?

Vencido o medo inicial, reuni-me com as responsáveis pela realização do reforço escolar e propus que “arregaçássemos as mangas” e buscássemos meios diferenciados e motivadores que possibilitassem incentivar as crianças em suas aprendizagens e que também aumentassem suas auto-estimas.

Lembramos, naquele momento, dos exemplos do mestre Paulo Freire e resolvemos valorizar o conhecimento prévio de cada uma para iniciação na escrita e na leitura. Além disso, escolhemos a aplicação de diferentes estratégias como: utilização de jogos pedagógicos que fossem voltados para o início da leitura, letras e sílabas em material emborrachado (e.v.a.) ou madeira, cruzadinhas, recorte de revistas e colagem, brincadeira de forca, “contação” de histórias e apresentação e leitura de livros infantis.

Ao final do primeiro semestre a maioria estava iniciada nos conceitos básicos de leitura e escrita, isto é, conseguiam ler e escrever palavras conhecidas, pequenas frases e textos. Ao final do ano todas conseguiram aprovação para a terceira série. Foi uma vitória conjunta delas e nossa com o resultado que elas tiveram.

Claro que nem todas conseguiram! Uma minoria, mas para nós de grande relevância. Algumas porque desistiram no meio do caminho, contra nossa vontade, talvez porque estranharam a assistência individualizada que oferecíamos, à qual não estavam acostumadas, outras porque apresentaram distúrbios de aprendizagens que não foi possível que solucionássemos, pois não era de nossa competência profissional. Nestes casos, convocamos a família, informamos e solicitamos que procurassem ajuda no Posto de Saúde ou similar para o devido atendimento à criança. Ficamos frustradas naquele momento, quando percebemos que as famílias ou não se interessavam, ou tiravam a criança do Projeto ou diziam que: ...“a professora já falou a mesma coisa, que a criança não presta atenção, não acompanha as demais; não pára no lugar, mas ela (a criança) tem é que apanhar, para tomar vergonha”, e nada faziam.

E aí? O quê fazer? Nada. Pois é, nada. Fizemos o nosso papel, tentamos explicar da melhor forma possível a realidade de cada criança, mas esbarramos com a falta de conhecimento e de interesse de seus responsáveis.

Em 2007 - 2008, com a aprovação automática, sem a recuperação paralela, prometida pelo Prefeito que estava no poder, as coisas ficaram piores. As crianças passavam para períodos seguintes sem a menor base para cursá-los. E o pior? Pasmem. Algumas crianças que apresentaram no decorrer dos primeiros anos escolares (1º ciclo – e períodos Inicial e Intermediário do 2º ciclo) distúrbios de aprendizagem, por nós identificados, foram aprovadas automaticamente para o período final do 2º ciclo sem conseguir ler fluentemente e escrever e sem conhecer os conceitos prévios das outras matérias a que terão acesso.

E aí? De novo questionamos. O que será dessas crianças? Como conseguirão conviver com suas dificuldades e como os professores agirão ao constatarem suas necessidades/incompetências escolares?

Será que o Prefeito (não interessa o nome) e seus “asseclas” pensaram nisso? Tiveram consciência ao criarem a aprovação automática, não fornecendo os meios complementares que a viabilizassem? Claro que não acredito eu.

E aqueles que foram automaticamente aprovados para a mesma seriação (período final – 2º ciclo), cujas escolas/professores não apresentaram os conceitos necessários, principalmente de matemática?

E aí, amigos? Sabiam que alguns professores têm a coragem de passar como tarefa escolar, para crianças que estão no período intermediário do 2º ciclo (antiga 4ª série) cópia de textos dos livros – como conteúdo de português, ou seqüência numérica – como conteúdo de matemática? Não se preocupam se são capazes de ler corretamente, respeitando as pontuações, os mesmos textos copiados ou a produzir e escrever textos, sem erros ortográficos e gramaticais e com coerência – princípio – meio e fim.

E aí? Sinto-me completamente frustrada e incapaz, percebendo que nada posso fazer, pois não posso interferir na escola e solicitar um BASTA para tal procedimento.

Mas, por outro lado, com aquelas crianças que são alunas deste tipo de professor e que se interessam em aprender os conceitos relativos ao seu período, trazidos pelos colegas como tarefas escolares, vou à luta e autorizo que lhes sejam ensinados, numa tentativa de prepará-los para a seriação seguinte.

Estas constatações não impedem meu trabalho e das pessoas que estão comigo nesta luta. Continuamos seguindo o exemplo daqueles que conseguiram vencer os obstáculos: buscar o resultado diário, o melhor de cada um e de nós mesmos para atingir nosso objetivo!


Em tempo: De acordo com declarações á mídia da nova Secretária de Educação, as coisas vão mudar. Espero que sim!
Glecy Naegele Barbiratto é professora, psicóloga e coordenadora técnica do projeto Construir o Saber, da Casa Estrelas do Amanhã (Ceam), na comunidade do Querosene
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Comentários
  DILMA AUGUSTA DA SILVA
27/01/2009

Parabens professora, ainda bem existem pessoas como vc. que se debruçam de corpo e alma naquilo que acreditam. E pode crer, vc há de conseguir muitas vitorias!!Estou certa disso, excelente o artigo.Estou orgulhosa da amiga.
 
  Fernando Pinheiro
09/07/2014

Um trabalho muito bacana e acima de tudo necessário, coordenado pela Glecy. Parabéns ao lindo texto e principalmente pelo trabalho realizado permanentemente na ONG, onde é digno e encantador saber que há pessoas ajudando a resgatar esses menores tão esquecidos e desemparados.
 
 

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