Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

A Cartográfica Face de Pedro de Alcântara

Por Maria Balé

Pedro Alcântara, ele se chama. A despeito de Pedro Alcântara remeter a nome de rei, sua nobreza não se sustenta no azul imaginário do sangue, tampouco em jóias da Coroa. Trabalha há anos como vigia numa esquina de um bairro residencial na ofegante zona sul da capital paulista. De domingo a domingo, da aurora ao crepúsculo. Não há notícia sobre uma única falta. Uma vez a cada dois anos visita a sua terra natal nos confins inóspitos do Norte do país, fronteira entre a desolação e o flagelo. Cinco dias para ida, cinco dias para a volta. Se ausenta por um mês e meio e, em seguida, retoma a titularidade do seu posto. É parte da paisagem. Ninguém sabe onde mora. Para o emprego informal, sem direitos trabalhistas, se desloca rangendo a austera bicicleta "barra forte", velha companheira de guerra.

A expressão densa de seu rosto registra os humores do tempo. De seus olhos de gruta as cores se foram, deixando réstias líquidas da árdua jornada. Os sulcos na pele queimada de sol, como um solo rasgado para o plantio, traçam o mapa do caminho hostil ao qual se submete seu destino. Quantos mundos por ali haveriam passado? Quanto riso, intempéries, torrentes de afetos, dúvidas, medos, dívidas, certezas e sustos perpetram a singular erosão dérmica? - me pergunto a cada "bom dia" tímido, inaudível ao desatento.

Educado, cabeça erguida, olha firme na cara. Pedro Alcântara, o guarda Pedro, é gentil, altivo por natureza. Atavismo, seria?

Sua figura remete ao ator americano John Bryant, o agreste "Homem de Marlboro" da festejada propaganda de cigarro. Na seqüência de imagens lentas, Pedro Alcântara peregrina nas minhas lembranças, enquanto o dono da casa que fora invadida, em plena luz do meio-dia no primeiro dia do ano, relata como foi que um dos assaltantes acertou o aguerrido sentinela. Um tiro só, à queima-roupa.

O posto agora está vazio. O quarteirão é estrangeiro sem a sua presença. No entanto, resisto em pensar nele conjugando no passado. Como o rio de Manuel Bandeira, a cartográfíca face de Pedro Alcântara deflui silenciosamente na minha memória. Nela, sua saga se desmembra e se remonta no encontro de duas ruas."Ser como o rio que deflui / Silencioso dentro da noite / Não temer as trevas da noite / Se há estrelas nos céus, refleti-las / E se os céus se pejam de nuvens / Como o rio as nuvens são água / Refleti-las também sem mágoa / Nas profundezas tranquilas"...Que nas profundezas do imperecível leito da eternidade, em paz adormeça, Pedro Alcântara.

******

PS: Pedro Alcântara era o guarda da minha rua no bairro de Moema em Sampa

Maria Balé é escritora

Envie seu comentário:
Nome:*
Email:**
Comentário
Imagem de verificação

*Campo obrigatório
**O e-mail não é obrigatório e não será exibido no comentário
Comentários
  Valéria S. D. Lopes
09/05/2009

É um prazer encontrá-la, Maria Balé!!

Esse texto é maravilhoso, um dos meus preferidos. É emocionante. Imagino que seja uma mulher de coração grandioso, que enxerga facilmente o interior das pessoas e acredita, que a felicidade existe nas coisas simples. Será que "acertei na mosca"? Falando em mosca, foi o Jorge Nagao, que passou esse site.
Espero, ainda, ler seus textos no Primeiro Programa.
Beijos,
Valéria Lopes.
 
 

contato@algoadizer.com.br | Webmaster: Marcelo Nunes | Design - Pat Duarte