Algo A Dizer
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Um Domingos em apologia de si, dos seus e dos nossos

Diretor trabalha com realidade e ficção para compor um retrato sensível de uma geração que transcende épocas

Por Gustavo Dumas

O milionário Davi (Paulo José), o diretor de teatro e cinema Antônio (Domingos de Oliveira) e o médico Ulisses (Aderbal Freire Filho, ótimo em seu primeiro papel no cinema) reúnem-se para beber, conversar, brincar e, sim, tomar algumas decisões – todas no campo afetivo – depois de mais de cinquenta anos de amizade. O único critério de seleção do encontro, o não comparecimento das respectivas mulheres de cada um dos amigos, acaba servindo para trazê-las, como elemento gerador/motivador dos temas discutidos na récita fraterna. Trata-se “Juventude” (Brasil, 2008), pois, de um filme intimista pero no mucho. O mundo está lá, o tempo todo; o íntimo é mundano e exacerbado como o tanto de diálogos que dão liga ao roteiro. O verbo escancarado demonstra que o tempo da ação apenas fez um breque para a reflexão, tecida com muito humor e picardia por velhos parceiros de cena.

O filme já abre com a fala de Antônio definindo a “sua” geração como a do sonho e suas constantes frustrações. Muito deste sonho era sonho coletivo, ou melhor, sonho pensado por alguns, para um coletivo; produto, portanto, de validade considerada vencida pela história contada pelos vencedores – que a venderam ou vendem. O roteirista e diretor do filme, Domingos de Oliveira, tragou bem cada golpe e continua na lida: seu “Juventude” oferece uma amostra de que essa geração continua viva e produzindo.

Mas, afinal, o que representa uma geração? E as idades, para cada vida e para a vida em sociedade? Juventude é uma criança fazendo arte – e isso fazem Domingos, Aderbal e Paulo José, desde que desde, até não respirarem mais. O caráter espontâneo das falas, a sinceridade do afago e mesmo da bronca entre os amigos da “idade do você está ótimo!” – só uma dentre tantas belas e simples tiradas do longa – torna “Juventude” um filme extremamente cativante e comovente. Antônio, infartado, faz graça com a caseira “flor do campo” que cuida da casa de Davi; ele quer falar e ver o amanhecer. Trata-se de postura respondona diante do breu-silêncio que o espreita: a morte. A geração que transcende épocas e que está representada, enaltecida e revigorada no filme de Domingos é aquela que se dispõe a enfrentar todas as formas de morte que nos assolam, das injustiças sociais aos infortúnios das relações amorosas, do capitalismo cujo fogo tudo consome à morte prática dos projetos de dar cabo de sistema tão espúrio.

A geração incontinenti de Domingos e seus pares parece antenada para o fato de que os simulacros nunca estiveram tão afiados, em seu propósito de desfiliar a vida de sua variedade de sentidos. “O show do eu” – para citar o título do novo livro da argentina Paula Sibilia (Nova Fronteira, 2008) – trata-se na verdade do show de um eunuco, alguéns incontáveis, em profusão pelas cidades, mas que já perderam a potência e se virtualizam para sobreviver. A este “eu” vazio é que se opõe a subjetividade de um “velho” da geração de Aderbal, Paulo e Domingos. Que não precisa ter nascido naquela época, não precisa sequer ter nascido ainda. Não há capa nem máscara a esconder a cara desta turma – seu choro e seu riso, suas dignidades e vicissitudes, generosidades e incoerências estão dispostas. Pudor seria não viver. E este viver disposto encontra-se em oposição ao viver exposto, inócuo diante das janelas-tevê, em forma de produto-em-si. Domingos imbrica a realidade na ficção de maneira a mostrar que ambas podem (e devem) interpretar e interpelar o show diário. Esta provocação de entrelinha habita todo o plano narrativo de “Juventude”, que utiliza elementos desprezados pela linguagem dos realitys, como o lúdico, a piada de botequim, o sarcasmo, o livre contar dos causos.

Ao extrair da exposição de teses que poderiam passar por pessoais um mundo de questionamentos universais, Domingos de Oliveira constrói uma obra que, despretensiosamente, faz divertir, emocionar e pensar, contrariando os que acreditam que esses três verbos não podem conviver em uma película.
Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias "A Perspectiva do Quase" (Arte Paubrasil, 2008) e "Idade do Zero" (Escrituras, 2005).
Contato:zehgustavo@yahoo.com.br
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Comentários
  Maria Balé
23/01/2009

Zeh, amei o texto, só pra variar, né?

Beijo e te espero em Sampa "as soon as possible"...
 
  zelia jesus de lima
23/01/2009

Esta matéria é preciosa - a temática, a linguagem , o conteúdo e o sentido todos tem lógica e alma. Parabens pelo e-mail e pela dilvulgação da produção do autor.
 
 

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