Algo A Dizer
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Coração pidão

Fechar as janelas para os olhares que passam pode não ser tão protetor assim

Por Denise Ribeiro

O menino olhava para ela, com aquele olhar pidão, parecendo seu beagle esfomeado tentando ganhar um pedaço de pão. Mas a fome do menino era outra. De carinho, atenção. Entre tantos carros atravancados no congestionamento, o dela era o único com a janela aberta, o único em que o menino podia encostar e pedir o que os meninos nos semáforos costumam pedir. Mas ele não fez isso. Ele apenas se manteve a dois passos de distância e usou a única arma que tinha para impressioná-la: aquele olhar pidão.

Ela não sabia muito bem o que fazer nessas situações, quando a enfrentavam sem palavras. Sim, porque a especialidade dela é esgrimir palavras. Vive em guarda, a lâmina afiada pronta a devolver golpes eventuais, a desmontar piadas imbecis, a retrucar ironias sutis. Mas como lidar com esse olhar transparente e forte, no qual ela não identificava uma gota de revolta, ódio, desprezo?

Fica mais simples quando é possível usar esse subterfúgio como justificativa, se esconder atrás do medo que o outro nos causa. Mesmo sabendo que é muito mais legítimo o sentimento dele, muito mais corajoso e ativo do que a nossa inação. Fica mais fácil subir as janelas, se escudar no insufilme e suspirar aliviado, agradecendo o ar condicionado que esfria a cabeça e nos transporta para outra dimensão.

Mas ela não é do tipo que recorre a subterfúgios, justificativas idiotas, desculpas esfarrapadas. Nem insufilme o carro dela tem, porque acha um saco perder as possibilidades contidas nos olhares de todos os que cruzam o seu caminho. Achava uma falta de criatividade, de talento, de ousadia essa invenção, coisa pra gente que não agüenta nem o coração latindo no peito. Onde já se viu supor que um filme escuro grudado nos vidros vai te proteger dos bandidos? Pro diabo os argumentos e as estatísticas - ela pensava -, eu é que não vou me transformar numa ilha, vedar as janelas do meu carro para o contato com o mundo.

Então o jeito era encarar de volta o menino, dando a ele o mesmo olhar transparente e forte que ele merecia. Ficaram assim, poucos segundos, até que ela, num aceno, convidou o menino a se aproximar do carro. Ele deu os dois passos que o distanciavam dela e sorriu um sorriso meigo e quente. Foi o suficiente para que ela derretesse e deixasse cair por terra qualquer senão em relação ao menino.O que conversaram depois não importa. O importante é que ela percebeu que o coração pidão era o dela. Que o menino, franzino, sujinho e sem nada nas mãos, conseguira suprir a dose diária de atenção e carinho da qual ela tanto necessitava e que, mais do que o ar condicionado, a transportou para o paraíso.
Denise Ribeiro é jornalista (denisemrib@gmail.com)
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