Algo A Dizer
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Coisas de homem

Por Marilena Montanari

Estou firmemente decidida a descobrir o mistério escondido em alguns dos hábitos domésticos masculinos mais simples. Para isso, tenho trocado ideias com algumas amigas que identificam em casa os mesmos comportamentos. Não se trata de criticar. Antes, observar. Nada contra os homens. Que eu adoro. Principalmente os que fazem parte da minha vida.

Embora não tenha chegado a uma conclusão plausível, tudo leva a crer que o gênero masculino inconscientemente tem pavor de que as mulheres se tranquem de vez para eles. Principalmente aquela parte da anatomia que eles tanto buscam.

Afinal, o que pode explicar o fato de quase nunca tamparem o pote de bolacha, o copo de requeijão, o vidro de adoçante, o açucareiro ou jamais fecharem o saco de balas, as portas, o box, as cortinas? Pode estar nevando que eles insistem em abrir as janelas da casa ou do carro, para desespero das mais preocupadas em se proteger nos semáforos.

Demonstração ancestral, talvez. Essa necessidade de deixar coisas expostas deve ter resquícios nos machos de outras espécies que vão se exibindo e mostrando cores, penas e garras. Elementos de que os homens contemporâneos prescindem. A mulherada assumiu esse papel há tempos e eles não devem estar conformados com isso.

Preste atenção na sua casa. Veja até que ponto os homens que moram com você desenvolvem a síndrome do não fechar nada. E perceba quais as conseqüências dela. Biscoitos murchos, tampas perdidas, cachorro na sala de jantar, folhas no tapete do quarto ou um penteado desfeito.

Consequências nefastas podem advir também daquele pano de prato no qual limparam as mãos e que foi jogado em cima do fogão onde uma chaleira apitava nervosa.

Esses queridos companheiros precisam estar sempre no comando. Que exercem brincando com o controle remoto, o que já virou tão clichê como aquela história da diferença entre um homem e um menino: o preço do brinquedo! Irão mudar de canal assim que você começar a se interessar pelo programa. Passarão uma hora zapeando tudo e vendo nada. Aí, eles desligam a TV a cabo, mas o aparelho vai permanecer ligado...

Agora, se você não encontrar aquele dispositivo para prender os tênis na secadora, pode ter certeza de que ele o jogou fora, desconhecendo completamente a utilidade daquela pequena grade. Como ele irá se desfazer daquela revista antiga onde havia saído um artigo com foto daquela entrevista que você deu sobre revisão de textos. Pergunte a ele por outras coisas sumidas ou pela vela de sete dias que você, prudentemente, acendeu na lavanderia com o maior cuidado. Ele dirá que desconhece, sei lá, que você é uma bagunceira e nunca sabe onde guardou as coisas...

Nem tudo somos capazes de captar, mas deciframos a maioria das enrolations. Já eles têm um pouco mais de dificuldade para perceber quando a enrolation é nossa. Às vezes,vêm com essa: Não sabia que você estava em casa.Claro que sabiam. Era só verificar seu chaveiro no porta-chaves. Mas aí é querer demais.

Não se preocupe se ele não perceber seu vestido novo. Depois de usá-lo pela décima-quinta vez ele irá, finalmente, elogiar seu novo figurino. É melhor confessar que nos vestimos para as outras mulheres, não para eles, e deixar de cobrança. Por outro lado, ele insistirá em sair para jantar com a mesma camiseta surrada que ele usa para lavar o quintal. E só irá perceber que você cortou o cabelo e tingiu de vermelho quando estiver procurando-a no meio da multidão no shopping. Puxa, aquela é a cara da minha mulher!

Coisas de homem.

No quesito banheiro, vá lá. Assumimos a culpa por aquele amontoado de cosméticos (de cosmos, mesmo) sobre a bancada da pia e as displicentes calcinhas dependuradas. Mas trocamos o rolo de papel higiênico quando necessário. Talvez a toalha molhada no chão do banheiro ou em cima da cama tenha outra história. Sensação de poder tudo. Sempre terá alguém atrás deles para pôr a casa em ordem. Como faziam as felizes esposas de antigamente, cuja única preocupação era cuidar do lar, marido e filhos. Aquela horrorosa da Betty Friedan questionou demais e agora as mulheres se perdem em tantos afazeres em casa e fora dela.

Voltemos à toalha. Ele pode até pendurá-la bonitinho. No entanto, certamente não será a dele. Não adianta monograma, cor, laço, fita. Ele vai pegar a primeira que encontrar mesmo que nela esteja bordado ALICE.

Quanto à tampa do vaso sanitário, tenho uma decisão formada: é melhor deixá-la levantada do que correr o risco de se sentar numa superfície respingada. Eca!

Ah! Não se esqueça de comprar uma tabuleta: FAVOR LIMPAR OS PÉS, para não correr o risco de ver seu tapete indiano massacrado por pegadas de terra.

Observem, anotem o que acharem relevante nos hábitos masculinos de um modo geral e me ajudem a continuar com a pesquisa. Os meninos podem dar a contrapartida. Afinal, temos particularidades do gênero que vão muito além das crises de TPM e daquela misteriosa reunião no banheiro feminino.

Coisas de mulher.

Marilena Esberard de Lauro Montanari é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Tem artigos espalhados em revistas e folhetins; atua em empresas como consultora para a produção de textos e instrutora de cursos de Redação e Gramática. Publicou o fichário SOS-Língua Portuguesa, em parceria com Edna Maria Barian Perrotti

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