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A corrupção aumentou no Brasil durante o governo Lula?

Por Sérgio Batalha

A pergunta do título é motivada pela insistente ênfase que é dada pela mídia no Brasil aos casos de corrupção no Governo Federal após a posse do Presidente Lula. O cidadão fica com a sincera impressão de que nunca houve tanta corrupção no Brasil como passou a ocorrer desde 2002. No entanto, uma análise mais acurada do que ocorreu no Brasil durante os mandatos de Lula indica exatamente o contrário do que a mídia nacional quer fazer parecer.

Em primeiro lugar, deve-se admitir que efetivamente ocorreram a partir de 2002 vários casos de corrupção no Governo Federal, que ganharam grande destaque nos jornais. Normalmente, o noticiário partia de operações da própria Polícia Federal, que realizava prisões de diversos acusados e apreensão de provas e documentos.

No Governo de Fernando Henrique Cardoso houve igualmente diversos casos rumorosos de corrupção, sendo que a liderança do PT chegou a divulgar documento intitulado "Os 45 escândalos do Governo FHC". Entre outros, podemos recordar as denúncias de corrupção durante os processos de privatização, das gravações de compra de votos de deputados federais na aprovação da emenda da reeleição de FHC e do caso da "ajuda" do Banco Central aos bancos Marka/FonteCindam, que levou à cadeia o banqueiro Cacciola.

A diferença entre os dois governos não está exatamente na quantidade de casos ou denúncias de corrupção, mas no extenso noticiário envolvendo a prisão de corruptos a partir do primeiro governo Lula. Obviamente, os casos de prisão normalmente repercutem muito mais dos que envolvem meras denúncias, até porque a Polícia Federal costuma a apresentar vasta quantidade de provas que justificam as prisões preventivas.

Chegamos, então, ao ponto que interessa. O que o freqüente noticiário sobre corrupção no Governo Lula revela não é o aumento deste fenômeno, mas o seu efetivo combate.

No Governo FHC, a Polícia Federal tinha uma atuação "politizada", ou seja, atuava apenas quando o assunto não trazia embaraços ao Governo Federal. Ou, ainda, quando trazia embaraços aos seus adversários, como foi o caso da apreensão de dinheiro vivo para enterrar a candidatura de Roseana Sarney à Presidência. A Polícia Federal limitava-se a investigar pequenos corruptos e contrabandistas, poupando empresários e políticos aliados do Governo.

No Governo Lula, ocorreu a efetiva libertação da Polícia Federal deste esquema, sob o comando do Ministro Márcio Thomaz Bastos, que estabeleceu uma diretriz observada por seus sucessores. Assim, a Polícia Federal passou a ter carta branca para investigar casos de corrupção na Administração Pública Federal, mesmo em áreas dominadas por aliados do Governo.

O próprio Lula adotou a política de nomear os aliados políticos para os cargos na Administração Pública Federal sem qualquer "imunidade". Ou seja, o aliado assumia, mas estava entregue à própria sorte no caso de corrupção. A Polícia Federal tinha toda a autonomia para investigar e, eventualmente, prender os envolvidos, sem submeter suas decisões ao Presidente ou ao Ministro da Justiça.

Assim, os casos de corruptos presos ou investigados em diversos órgãos do Governo Federal se multiplicaram nos últimos anos, dando a falsa impressão de um aumento da corrupção. Obviamente, esta "impressão" foi muito estimulada pela linha editorial dos órgãos de imprensa, que buscavam enfatizar a corrupção no Governo Lula como um fato novo na Administração Pública Federal, ironizando o discurso ético historicamente adotado pelo PT na oposição.

A verdade é que a corrupção está entranhada em nosso Estado e na própria sociedade brasileira. A corrupção faz parte de nossa cultura política e historicamente sempre foi utilizada pela nossa classe dominante como instrumento de acumulação de capital, desde a época em que éramos uma colônia de Portugal.

Por outro lado, a máquina pública federal é simplesmente gigantesca e contém esquemas de corrupção em praticamente todos os seus setores, articulados por grupos e interesses os mais variados. Existem desde esquemas que eram comandados por altos escalões da política e do empresariado, até esquemas movimentados exclusivamente por funcionários, que contavam apenas com o desinteresse do Governo em apurar suas falcatruas.

É uma fantasia imaginar que algum presidente ou partido político pudesse assumir o Governo Federal e extirpar a corrupção da máquina pública em um ou dois mandatos. Até porque ela faz parte de nossa cultura. Existe uma tolerância generalizada com a corrupção, principalmente quando se tem contato pessoal com ela. Em tese, todos são contra a corrupção e contra os "políticos nojentos" que a praticam. No entanto, estas mesmas pessoas que escrevem cartas indignadas aos jornais comentando o último escândalo de corrupção, tem uma atitude inteiramente diferente quando se defrontam com a possibilidade de obter uma vantagem pessoal.

O próprio eleitor frequentemente vota em candidatos que ele próprio considera corruptos, sob a desculpa de que "o sistema é este mesmo" ou de que fulano "rouba, mas ao menos faz alguma coisa". Não custa acrescentar que a imprensa faz parte deste sistema, com jornais e TV's vivendo de verbas de publicidade muitas vezes "trocadas" por matérias jornalísticas favoráveis a seus interesses, sem falar de colunistas que chegam a vender notas em seus espaços jornalísticos.

Logo, o discurso anticorrupção no Brasil tem muito de demagógico e hipócrita, sendo utilizado segundo os interesses de quem o formula. Se Lula tivesse enfrentado os escândalos de corrupção da era Fernando Henrique, talvez tivesse sido linchado como corrupto em praça pública, tal o escarcéu com que eles seriam noticiados pela mídia. Por outro lado, o tão badalado "mensalão" no Governo FHC seria um traque que não daria uma semana de manchete.

Afinal, no governo Fernando Henrique vários deputados tiveram gravadas a negociação para a venda de seus votos em favor da reeleição do Presidente e o assunto não teve um quarto da repercussão do "mensalão", onde se comprovou apenas contribuições ilegais para a campanha de partidos da base aliada.

No futuro, o Governo Lula será visto, ao contrário do que pretendem seus detratores, como o início de um efetivo combate da corrupção no Brasil, na medida em que pela primeira vez na história do país se deu à Polícia Federal o poder de investigar e prender os grandes corruptos, fossem eles grandes empresários ou políticos famosos.
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Comentários
  Miguel
23/08/2010

Sobre corrupção.
 
  MARILENE NPBREGA
24/08/2010

ENVIAR PARA A MARILENE
 
  Sergio S. Brasil
26/08/2010

O articulista é um deslavado petista. Certamente ocupa o cargo via manipulações sindicalistas decorrentes do carreirismo implantado pelo Partdo dos Trabalhadores. A propósito: sou filiado ao PCB.
 
  Um velho Comunista
27/08/2010

Rapazinho, v. está no Partido errado. Antes de ficar rotulando pessoas que v. não conhece,
informe-se com o Ivan Pinheiro, como se forma uma frente de Esquerda, como trabalhar
com os aliados ou estará levando agua para o
moinho do DEM, PPS e Adjacências.
 
  José Carlos
18/09/2010

O assunto "Segurança" é do meu mister, portanto posso falar com segurança de Segurança, pois nela milito: - nunca se combateu tanto a corrupção no Brasil como agora.
O que que havia outrora era uma exposição nula do tema, devido as causas que qualquer brasileiro conhece. Mas a mais fundamental e básica era não haver auto-estima na base pirâmide. Portanto não havia cobrança.
Queira a oposição ou não, o Presidente atual tem como maior trunfo, mais do que o progresso econômico, o resgate da auto-estima de nosso Povo. Esta é que enseja a cobrança.
Nestes quase cinquenta anos de trabalho posso testemunhar: o combate a corrupção hoje é uma política de Estado.
 
  Daniel Matta
13/12/2015

Concordo inteiramente com o texto acho lamentável os comentários de alguns cidadãos, que não tem discernimento para refletir e acusam o autor de comunista ou petista, mesmo que ele seja, isto não tira o mérito, não anula a verdade.
 
  mffflelis
06/03/2016

Bom muito
 
 

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