Algo A Dizer
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Café na esquina, lembra?

Por Vivina de Assis Viana

Mãe e filho entram no táxi:

- Você leva a gente pra Vila Mariana, por favor?

- Qual rua? - Pergunta o motorista, tomando a direção do bairro.

- Sabe ali na caixa d'água, perto da Estação Ana Rosa?

- A senhora sabe a rua?

- Sei, claro, já fui lá não sei quantas vezes. Pode ir seguindo pra lá que me lembro, daqui a pouquinho me lembro.

- Você não tem o endereço aí na agenda, mãe?

- Claro, filho, sempre tive, vou olhar.

- Olhou? Achou, mãe?

- Ai, filho, você acredita que sumiu? Não consigo encontrar. Será que ficou na agenda do ano passado?

- Vocês vão aonde? Médico, dentista, escola? - Pergunta o motorista, desanimado.

- Médico.

- Alguma clínica? Quem sabe, eu conheço?

- Não, não. Lá, não tem nada escrito do lado de fora. É uma casa de dois andares, branca, janelas azuis, logo no princípio da rua.

- Antes, ou depois da caixa d'água?

- Antes - garante a mãe.

- Depois, tenho certeza, mãe! - Garante o filho, seis, sete anos.

- Ah, acho que me lembrei! Não será a Rua França Pinto? Existe essa rua, na Vila Mariana, não existe? - A mãe se enche de esperança.

- Existe, e é essa aqui! Posso subir? - Pergunta o motorista, animando-se.

- Poder, pode, mas, se essa é a Rua França Pinto, a que queremos é outra. Essa sobe, a outra descia, só descia.

- Mãe! Tinha um café na esquina, lembra? Um dia, quando a gente foi de metrô, você tomou, disse que estava uma delícia, lembra?

- Lembro, filho, e bem que eu queria tomar outro agora, mas onde? Lá era esquina com quê?

- Vou pra caixa d'água - diz o motorista.

Depois de esquinas com postos de gasolina, oficinas mecânicas, lojas, padarias, pizzarias, finalmente um café. O café.

- É aqui! - Gritam mãe e filho.

O motorista, certo de que Deus existe e é paulistano, em silêncio, como se estivesse calmo, desce a rua devagar, reparando em cada casa.

A que eles buscam é branca, janelas azuis.

A que encontram, dois andares, logo no início da rua, é bege, janelas marrons recém-pintadas.

- A culpa não é minha - diz a mãe, abrindo a porta do táxi. - Como é que os médicos mudam a cor dos consultórios, assim, sem avisar os pacientes?
Vivina de Assis Viana é escritora, autora - entre outros - de "Aqui, em Nova Iorque...(NY in loco)" (Editora Positivo) e "Os passarinhos do mundo" (Autêntica Editora - literatura infanto-juvenil)
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Comentários
  Raíssa
31/03/2015

Caraca véi... Muito Foda... Maneirinha essa lenda... SQNever...
 
 

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