Algo A Dizer
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Vida Secreta das Palavras

Por Maria Balé

Eu penso certo, mas escrevo errado! É o que diz meu filho, aos onze anos de idade, se explicando face às suas péssimas notas de Redação.

Surtos e gritos de mãe à parte, considero sua premissa e discutimos a questão. A frase pueril e angustiada traduz seu sofrimento ao ter diante de si a tarefa de escrever sobre um tema definido. Concordo - secretamente, é claro - que escrever sob encomenda é a Sibéria da Literatura.?

- Eu sei o que a professora quer, ela é legal, explica tudo direitinho. Eu entendo, começo, mas sai tudo diferente, tudo errado!, argumenta em tom choroso, embrenhado na ramagem do vasto mundo das letras. A cena me enternece e seu abraço me comove.

Filhos, para que 'crescê-los'?!

Escreve bem quem lê bastante, repetia Irmã Josepha, professora de Português no colégio de freiras onde eu estudava quando eu tinha a idade dele. Era o mantra de todas as aulas.

Enchi meu filho com publicações para crianças e ao longo daquele ano se concretizou uma epopéia. Ele leu O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon por duas vezes. Encantou-se com o herói da história, Tistu, o menino que dormia durante as aulas.

O tempo passou, ele cresceu e ironicamente foi a nota de Redação que alavancou sua aprovação no vestibular para a Universidade.

A prosaica frase - penso certo, escrevo errado - que poderia ser extensiva a 'penso certo, falo errado' - ficou colada na minha memória e a ela me remeto quando, por necessidade ou aventura, me lanço ao ofício da escrita. Não sempre se consegue expressar o que se pensa e o que se sente.

A palavra, a mais antiga e extraordinária invenção da humanidade, já dizia o general romano Catão (Macus Porcio Cato 234 a.C - 149 a.C ), é dom de todos. Usá-la com sabedoria é para poucos.

As palavras têm vida própria, têm seu tempo. São concebidas a partir de idéias, sensações, pensamentos, sentimentos e intenções. Nascem das diversas formas de expressão e, então, não mais obedecem. Têm as suas preferências. Empatizam-se, são solidárias, se juntam e vão para onde querem. Unem-se aos seus congêneres, rejeitam o que lhes fere. Seus vínculos são vivos e dinâmicos. Identificam seu complemento, formam frases e anseiam mais. São independentes, não se subordinam. Não por rebeldia e sim por clareza de vocação.

Quando nos damos conta, lá estão elas, as palavras, se ajeitando num parágrafo, num texto, como partes ou toda a narrativa. Donas da história. Realizadas e serenas ou incomodamente desajustadas.

Quem escreve é hospedeiro, parte do processo. Via de libertação. Empresta o seu mundo para que as palavras possam, enfim, cumprir sua missão; instigar os corações inquietos concedendo-lhes os benefícios da dúvida, fartar o desjejum dos cérebros despertos, dar sentido e uma certa ordem ao caos que nos rodeia e ao caos que em nós habita.

Como as pontiagudas terminações dos arados, as palavras prepararam as mentes férteis para o plantio. Se felizes, serão belas obras, breves ou eternas. Medíocres, servirão aos seus iguais. Infelizes, serão efêmeras existências que, sem legado, morrerão sem luto.

Maria Balé é escritora

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