Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Ruínas

No interior da minha miséria eu não ignorava a presença da volúpia, de uma ponta de furor.
Jean Genet (Trad. Jacqueline Lawrence)

Por Állex Leilla

Acima de tudo, tentava ignorar os ruídos do corpo. Andou um tanto pra espantar os mosquitos, mas sentiu mais alvoroço e pontadas, e teve de parar. Sentou-se no canto da rua. No chão molhado. Cinco minutos. Deveria ser o bastante. A tontura logo cessaria e com ela as pontadas de faca na barriga. Coisinha má. Tentou adivinhar que manhã, que tarde seriam aquelas. Noite não. Perscrutou o céu: ainda não. A brisa boa era típica das tardes. Muitas nuvens brancas navegando pra lá, pra cá.

Não reclamou das dores. Riu, manso. Um riso de cara cortada ao meio: um lado da face inocente, a outra, escárnio. Cuspiu na podridão da rua. Cospe sempre nos lugares onde dorme. Vagabundo, disse mecanicamente, como sempre fazia quando estava distraído: vagabundo, inútil. Procura um rumo na vida. Vá trabalhar. Novamente, o riso. Mais forte. Uma gargalhada. Olhou em volta: vinha dele mesmo. Claro. Como não? Um pouco mais forte era a rajada que trazia uma sequência de gritos eufóricos: Brasiiilllll, Brasiiiiilll, Brasiiiiilll. Quem estaria gritando o nome do Brasil?

Ergueu-se, curioso. Correu em direção ao barulho. Não estava enxergando bem. Uma praga ruim aqueles olhos. Tentaria assim mesmo, tinha problema não. Em frente. Cuspiu de novo. Miséria. Avançava. Entrava na curva que dividia Pajuçara e Jaraguá, quando deu de frente com a multidão: Brasil, viva o Brasil. Mulheres índias, misturadas, mulatas. Homens misturados, brancos, índios. Um carnaval. Dançavam. Cantavam. Jogavam coisas pra cima. Batiam palmas. Uns tambores, muitos apitos, camisetas amarelas, verde-mata, azuis. Tiras de papel colorido invadiam o ar.

O Brasil ganhara alguma coisa. Estava claro. Algo muito importante. Por isso, o povo estava na rua. O povo? Sim. Estava claríssimo. Misturou-se também. Fazia questão de acompanhar, de gritar junto. Até se esquecera das pontadas. Parecia o paraíso. Alguém lhe deu cerveja. Estava um pouquinho quente. Ele bebeu. Resto de refrigerante. Bebeu também. A corneta ensurdecendo o ouvido. E o batuque, o batuque que levava pra frente, pro lado, pra trás. As mãos pra cima. Uma mulher gorda se encostou nele, radiante. Dividiu sua tapioca. Tome, meu filho, coma. Nem precisou pedir água: lhe deram duas garrafas. 4 X 2, alguém repetia, 4 X 2 é demais!

Voltou a se sentir cansado. Quando viu, estava abandonando Jatiúca. Como pudera andar tanto? As pontadas retornaram. Melhor parar. Um monte de gente havia se dispersado também. Escuridão total no terreno baldio onde, de súbito, parou. Não queria ficar ali. Retornou devagar em direção à luz. Buscou um abrigo no ponto de ônibus deserto. Esticou as pernas. Cochilou.

4 X 2 realmente era demais. Ouvira isso de muitas pessoas diferentes, muitos rostos alegres. Portanto, devia ser verdade. O Brasil ganhara de 4 X 2! Teria sido na sorte? Bom, muito bom. Estava cansado. De quem? Teria sido sorte? Da Argentina, bem que podia. Não se lembrava de nada parecido. Devia ter comemorado mais. Do Chile? Provavelmente, da França. Ou da Inglaterra? Não. Será?

O tempo passava e ao mesmo tempo não passava. Levantou-se. Sentiu pontadas e ruídos. Seus ossos mantinham aquela mania desgraçada de produzir ruídos vez ou outra. Miséria, praguejou. Vagabundo, cuspiu. O olhar foi achar um rosto rosado, delicado, no outro extremo da rua. Quis avançar, sacou o canivete, mas, uma vez próximo, retrocedeu. Inquietou-se: tirar dele o quê? Estupidamente, vasculhou o outro: relógio, boné. Sexualmente: lábios sequinhos, olhos claros. Um rapaz!

Caiu o canivete no chão. Abaixou-se e foi fulminado:

- Você pode me ensinar o caminho mais fácil pra pegar a Duque de Caxias, meu amigo?

A morte.

- Estou rodando este bairro há horas...

O sorriso.

Sentiu metralhadoras a um palmo. Não soube contar quantas rajadas vieram. Apesar de tudo, abriu os lábios feios e maltratados:

- Você deve seguir em frente, direto.

- Em frente? Ok. Obrigado, meu amigo.

Amigo? Mas!, se era um ladrão, um vagabundo?! Ah, as pessoas, realmente... Não, não tem condição. O quê? Tudo bem. Absolutamente. Tem problema não.

O rapaz retornou ao carro, caminhando a passos curtos. Um galo cantou. Onde? Estava ouvindo coisas. Aquilo era hora de galo cantar? Quanto mais rezava, Satanás aparecia. O galo cantou de novo. Pro inferno, não era obrigado a entender.

Odiou que sua felicidade fosse negada, odiou as miragens que extraía da possibilidade dela, daquela felicidade inacessível. Empurrou outros desejos com uma dolorosa pressão do pé contra o asfalto. Novas pontadas vieram. Deu vontade de cortar fora o dedo com unha encravada. Oito dedos pesam menos. Mas olhando o espaço vago do outro anular, arrancado há muito tempo, desistiu. Nem era tão ruim se sentir encravado.

Quando o carro do rapaz sumiu na esquina, ele partiu-se em mil distorções. Sabia que nada mais faltava lhe acontecer. Nem chuva, nem fome, nem medo. A grande ferida começou a tomar conta do espaço, da visão. Quis, depois de dias, percorrer a cidade atrás daquele rosto belo. Mas também quis mutilar-se, a fim de dissolver o desejo. Quis jogar pedras nas casas dos outros, assustar as mocinhas nos pontos de ônibus. Estava ficando cada vez mais confuso: os sonhos passavam rapidamente de magníficos a tristes. Num instante, via-se vestido de decência, de respeito, de aceitação, penetrando nas tais camadas, nos tais lugares distintos, dos quais esteve sempre afastado, dos quais jamais conhecera um milímetro sequer. Noutro, tinha ideias absurdas e vagas, que antes não costumava ter: arrancar as vísceras de algumas pessoas, provar o sangue de outras, ousar.

De todas as pessoas que lhe chamavam a atenção nas ruas, era o rosto do rapaz o que mais se sobressaía. Desaparecia, voltava. O rosto do rapaz que procurava o caminho mais fácil para chegar à Duque de Caxias. Onde estaria aquele rosto? Percebia a obsessão agigantando-se sobre seus trapos, seus músculos. Queria evitá-la, mas junto com ela ia a vontade de estar nos amanhãs e neles ser visto, daí a impotência diante dela, da obsessão, acabar por mantê-lo desnorteado. Mastigou uma lasca de madeira fina, juntando muita saliva para que não lhe arranhasse a garganta quando fosse engolir. Percebeu então que era isso o seu respirar sobre calçadas, sob o céu violentamente aberto: algo feito lasca de pau que ele engolia silencioso, diariamente, com um pouco de cuspe e nenhuma vontade de reversão.

Preso ao estômago, aos membros cansados, elaborou uma infinidade de mudanças que lhe permitissem fugir daquela vida lasca de pau silenciosa. Dormiu vesgo de tanto querer olhar deitado pro início da rua, a fim de descobrir de novo aquele rosto belo, alvo. Seu amigo das noites chuvosas chegou e foi se encostando. Ele o aceitou sem nenhuma piedade, nenhuma emoção, simplesmente acolheu-o, ajeitando-o em suas pernas, assim também poderia mantê-las aquecidas.

Uma senhora veio andando esnobe na esquina e caiu quando atravessava a rua molhada. Ele riu do tombo e da roupa dela, agora emporcalhada. Ela olhou com ódio e ao mesmo tempo medo dele. Ele se chateou, gritou uns palavrões, enquanto a via se afastar, correndo, dentro da noite. Ficou tudo quieto. Quando tudo ficava quieto daquele jeito, era porque o mundo estava em paz. Quando a chuva cessou, ele empurrou o animal e ergueu-se, vagaroso. Mas o bicho grudara-se novamente às pernas dele sem aceitar ser tirado do aconchego.

- Sai, demônio, por isso que eu detesto cachorro...

O animal choramingou, estava desprotegido.

- Some, peste.

Foi saindo, irritado, pela rua molhada, com o cachorro lhe seguindo o passo. Pois que venha, murmurou, que siga, tem problema não. Àquela hora era fim de turno no posto de gasolina do Centro, e no fim do turno sempre lhe deixavam tomar banho, até lhe davam roupas, às vezes rasgadas um tantinho de nada, às vezes, em perfeito estado. O banho era bom porque espantava por um tempo os mosquitos. Gostava de ficar muito tempo embaixo da torneira, imaginando que a água um dia ia abrir uma brecha no centro da cabeça e lhe entrar corpo adentro. Filava cigarro dos rapazes, contava bobagens pra eles se divertirem.

***

Foi numa ruela que viu o outro, banhado pelo resto de luz da avenida. Já havia esquecido de procurá-lo, conformara-se, aceitando a perseguição mental na qual a imagem daquele transformara-se. Acostumou-se tantas vezes a outras alucinações - de banquetes, de casas confortáveis, de cidades mais humanas, de pessoas próximas -, que já estava acostumado a vê-las, depois de um tempo, a voltarem diluídas pro poço escuro de onde, afoitas, saíam. Por isso, pensava torto embaixo do céu, que mal havia em querer aquele corpo e perder tal desejo outra e outra vez?

Mas então ele via o rosto belo e rosado. E seu ser há tanto tempo em ruínas foi soprado novamente. Comprimido. Espetado. Ele sentiu que tudo era aceso em fogo baixo, como numa pirraça. Baixo por que não tinha mais energia alguma pra correr atrás de desejos ou baixo por que estava transitando por terrenos estranhos? Pro diabo! Aquilo nem era coisa de se entender. Havia uma leveza vindo do outro, e como ele nada podia entender sobre leveza, teve dificuldades em manter-se de pé.

Um lindo rosto que conversava ou brigava? - achou que aquilo poderia ser uma briga - com uma mulher, e depois que esta se afastava nervosa num táxi, voltava-se confuso pro céu escuro e chuvoso de Maceió. Poderia chamá-lo e dizer o quanto sabia de noites & céus & chuvas & frio & escuridão de Maceió. O belo rosto não precisava voltar-se assim tão triste, assim tão perdido para contemplá-los. Bastava deitar-se ao seu lado, sob a marquise, e escutar o respirar, o obscurecer, o esbravejar que a cidade todos os dias gerava. Como dizer: venha, eu sou a lepra de Maceió? Não há podre que eu não conheça nesta cidade, como?

Antes que o outro jogasse no chão o cigarro e o apagasse com o pé muito bem amparado em couro e meia de algodão, antes que entrasse e ligasse o carro e fosse novamente se esconder em outros domínios, ele precisava abordá-lo, estar próximo, de frente. Nem que fosse apenas pra cultivar por mais um tempo a imagem. Avançou meio sem saber o que dizer e disse:

- Me dá um...

Antes que concluísse, o rosto bonito se precipitou a fechar a porta do carro. Assustado, ainda perguntou:

- O quê?

- Um cigarro...

- Ah - fez o outro aliviado; rindo, estendeu-lhe o maço. - Pode ficar.

O carro foi ligado. O rosto não se lembrara de um dia ter solicitado uma informação a um vagabundo maltrapilho?

Era a coisa mais bonita e mais doída que a vida lhe trouxera até então. Como gritar: te quero?

Disse, num desespero:

- Você não é daqui, né?

- Não - fez o outro da janela do carro. - Não sou daqui.

Podia agarrá-lo, sufocar aquele rosto contra o peito. Aspirou o cheiro gostoso dele que impregnava a noite. Entristeceu-se, envergonhado dos trapos que vestia, do homem que era. Percebeu, na inquietação do outro em ir embora, o medo. A estranha e tão absolutamente banal mania que todos os seres humanos tinham de sentir medo a qualquer momento. De quê? Dele? Imagina. Que bobagem. Espera.

- Tchau, meu amigo...

Não houve reação. A claridade da avenida engoliu o carro.

Ao deitar-se sob a marquise, ele pensou nas últimas imagens que lhe vinha às enxurradas e que não mais eram de banquetes, casas, conforto, mas de corpos colados, suados, entregues. Não dormiu. Começou a clarear e seus olhos se perdiam dentro de tanta luz. O sol principiava a sua destruição sagrada: iluminar, pôr em evidência as dimensões do feio e do belo, de maneira uniforme. Todas as coisas escapavam das prisões mentais e eram absorvidas pelo sol. Como queria amar aquele rosto! Não sabia como, mas queria. As imagens de corpos em fusão continuavam a pipocar feito bolhinhas pela rua, pelo ar. Foi ao mar, o que podia realmente fazer? O encontro de seus ossos com a água verde do mar. Deitou na areia da praia. Ficava vendo uns meninos brincando a poucos metros do limite Ponta Verde-Pajuçara.

Não entendendo mais coisa alguma, nem dentro nem fora de si, chorou. Foi um choro curto, quase sem água. Vagabundo. Inútil. Nem chorar você sabe. O belo rosto do homem que não era nem podia ser seu surgiu, riu, molhou-se nas ondas, misturou-se na areia, saiu rolando praia afora, desapareceu. De uma coisa soube, embora não fosse fácil saber de coisas naquele instante: que a paz não era adorno nem pano caro, nem teto nem comida, mas o fim do tormento que era mudar de desejo a cada novo minuto. Mas de onde tirar um fim para os desejos? Precisava limpar os olhos e procurar uma solução, porém, estava cansado, os ossos ruíam, as pontadas voltavam. Apertou um joelho contra o outro, sentando-se na areia. Olhou os carros na avenida. Cuspiu, voltando-se outra vez pro mar. De repente, uma crise de riso: que diabo! Que diabo, rapaz! Riu, cada vez mais alto: do que estava rindo mesmo?

Lembrou-se da festa do Brasil. Quando? 4 X 2. Claro. Foi isso. O Brasil ganhou sabe-se lá de quem de 4 X 2. Aquilo era uma deixa, uma motivação pra ele ganhar força, agir. Sim, claríssimo. Decidiu que se encontrasse o belo rosto novamente faria algo. O quê? Ora, demônios, tantas perguntas e tanta indecisão!

Abandonou a praia, lentamente. Tinha problema não, ia resolver. Um absurdo ver aquele cara ostentar tamanha beleza, um absurdo. Ia contra as obsessões e ruínas de seu ser, chocavam-se, era caco de vida e caco de morte pra tudo que era lado.

Achou abrigo numa marquise. Sentou. Repousou no próprio braço, retendo o resto de oxigênio que havia: fechou os olhos, forçou a vida a correr sem ar. Soltou-se, renovado. Outro placar precisava ser inaugurado, por certo. Quem estava ameaçado a perder? Respirou fundo. Ora, ora. Não fazia mal. Uma certa violência contida, alguém havia dito em seu ouvido, numa noite de lua cheia, pode fazer o mundo voltar aos eixos. Gostava daquilo: violência, lua cheia, mundo nos eixos. Mas como seria, como seria? Riu o seu riso pela metade e, amolando o canivete na calçada, sentiu-se mais capaz. Não havia problema nenhum. Claro. Encontrando aquele rapaz outra vez, fosse dia, fosse noite, estava decidido, ele iria resolver.


* Este conto foi publicado em 1996 no Suplemento Cultural do Jornal A Tarde; na Antologia Panorâmica do Conto Baiano, organizada por Gerana Damulakis, editora EDUESC, em 2004; e na antologia 15 Cuentos Brasileiros - Edición bíligue, organizada por Nelson de Oliveira, editora argentina Comunicarte, em 2007, quando foi totalmente rescrito e modificado pela autora.
Állex Leilla é professora de língua portuguesa e ficcionista, autora dos livros "Urbanos" (contos, Fundação Casa de Jorge Amado, 1997), resultado do Prêmio para Autores Inéditos da Copene (atual Brasken); "Obscuros" (contos, Oiti, 1999); "Henrique" (romance, Domínio Público, 2001) e "O sol que a chuva apagou" (novela, P55, 2009). Participou ainda de diversas antologias, como "25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira", organizada por Luiz Ruffato e editada pela Record, em 2004.
Blog da autora: http://www.allexleilla.blogspot.com
E-mail: allexleilla@gmail.com
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