Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

A guitarra, o piano, o mundo

Por Afonso Guerra-Baião

            Tempos atrás havia uma grande polêmica envolvendo a criação artística: arte pela arte ou arte engajada? A arte pela arte era entendida como a criação estética voltada para si própria, o artista voltado para o próprio umbigo, dentro de uma torre de marfim, distante da realidade concreta que as pessoas comuns vivenciam no dia-a-dia. Já a arte engajada se caracterizava pela preocupação social, pelo questionamento político, pela busca da expressão do mundo real dos humanos.

            A síntese desse dilema é que nenhuma obra de arte é realmente grande se for alienada, isto é, se for alheia ao que é humano, como também não será arte se não tiver a elaboração formal que possibilita recriar o mundo na dimensão estética.

            Não dá para discutir isso aqui e agora. Na verdade, quero falar de dois músicos: Roger Waters e Daniel Barenboim. Sendo a música uma arte abstrata, desprovida do estrato semântico, esses artistas fazem das entrevistas e das palestras seu espaço de engajamento sócio-político.  

            Em turnê pelo Brasil, Roger Waters, baixista e compositor inglês, ex-Pink Floyd, falou sobre nosso país: “Olhando de fora, eu vejo grandes mudanças. Esse país tem grandes possibilidades. Vocês estão se organizando mais, distribuindo de forma mais justa, se tornando uma potência que pode ser um exemplo". Ele acrescentou que mudanças positivas estão acontecendo em diferentes países na América Latina com a ascendência de vários governos de esquerda ao poder. Além disso, o músico distribuiu um manifesto em que conclama os povos a discutir a questão palestina. No documento, ele apela para o fim da ocupação israelense e pede a criação de um Estado Palestino livre. Suas palavras nos reportam à sua música: mais um tijolo na construção da paz no mundo.

 

Daniel Barenboim é um pianista e maestro judeu, militante pela paz no oriente médio, pelo caminho da compreensão e da não violência. Ele criou em 2004, junto com Edward Said, intelectual palestino, uma orquestra de jovens israelenses e palestinos. É ele quem diz: “A violência palestina atormenta os israelenses e não contribui para a causa palestina. A retaliação militar israelense é desumana, imoral e não garante a segurança de Israel. Os destinos dos dois povos estão inextricavelmente ligados e os obriga a viver lado a lado. Eles terão de decidir se querem que isso se torne uma bênção ou uma maldição.” Que melhor trilha sonora para o discurso de paz de Barenboim que sua esplêndida execução da Sonata ao Luar de Beethoven? 

Afonso Guerra-Baião é professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo

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Comentários
  Maria Balé
24/04/2012

Afonso, tão emocionante quanto as músicas, é o seu texto, culto, engajado, poético. Tão emocionante quanto seu texto culto, engajado e poético, é ouvir ''The Wall', com o coração fertilizado. Que página linda. Parabéns!
Um beijo, Maria
 
 

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