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"Sicko - S.O.S Saúde": o mais do mesmo de Moore contra o capital

Por Gustavo Dumas

Que o sistema mercantil perdeu o seu resquício qualquer de intenção civilizatória não é de agora. Mais recente, porém, é a (auto-)afirmação do capitalismo de mercado como via única do processo histórico global. Ainda que o burocratismo alienado tenha se instituído como um estúpido viés dominante da revolução russa, a derrubada do Muro de Berlim, em 1989, torna-se um símbolo precioso para converter e/ou adaptar o imaginário geopolítico mundial a uma situação de obediência e crença em um sistema hegemônico de longo escopo e alcance que não conhece mais limite algum. Esta força, que se apóia ainda na expropriação e planificação das culturas, na tecnologia de ponta e no militarismo invasivo, despreza fronteiras de território e afeta intimamente toda noção de identidade, corpo, nação; e o faz calcada em conceitos batidos, que acabaram fundamentando aquilo a que hoje nos referimos como neoliberalismo, cujo discurso nada apresenta de novo senão o fato de se impor como um compêndio de gastas idéias liberais num cenário de oponentes mudos ou silenciados.
Os tempos, no entanto, ventam, lá e cá. A eleição fraudulenta e a reeleição terrorista de um idiota útil como Bush filhote, nos EUA, pôs à prova os excessos do sistema - suas perversões. É justo contra estas perversões sistêmicas que se volta o cinema do norte-americano Michael Moore. O ataque é centrado: seu alvo são as contradições do regime capitalista e, principalmente, da democracia representativa modelo exportação de que o establishment estadunidense se utiliza, cinicamente, como instrumento de tomada de poder e influência em outros países. Em "Sicko - S.O.S Saúde" (EUA, 2007), Moore volta novamente os olhos para o seu próprio quintal, elegendo o sistema de saúde público e privado dos EUA como signo do ponto extremo de insensibilidade e desrespeito a que chegaram os interesses corporativos das indústrias de fármacos e de planos de saúde. Moore destila todo o seu sarcasmo; opera com fluidez e didatismo para dar o seu recado, usando e abusando da estratégia de dissecar na telona verdadeiros melodramas da vida real; não poupa esforços no expor o ridículo e a empáfia de uma classe política - e aqui se incluem os democratas - que abandonou há muito qualquer pudor de se alinhar com o poder dos grandes conglomerados.
"Sicko - S.O.S Saúde" mapeia os mecanismos de obtenção de lucratividade máxima do sistema de saúde (?!) americano, contrapondo-os ao de países capitalistas como Inglaterra, em que as pessoas chegam a receber o dinheiro do transporte quando procuram atendimento e os medicamentos são tarifados em 6,65 libras; Canadá, onde o sistema é mantido por regras de solidariedade, de acordo com a capacidade financeira de cada contribuinte; e França, na qual a rede de proteção do Estado oferece benefícios como atendimento médico domiciliar e pagamento de ajudantes do gênero faz-tudo quando o casal acaba de ter filhos. A pitada letal de ironia dá-se quando Moore se encarrega de levar parte de seus entrevistados para conseguir uma cobertura médica na base militar americana de Guantanamo, onde o governo norte-americano jura que a seus presos políticos é fornecido um atendimento de primeira. Por motivos óbvios, a equipe é barrada, e encontra então "asilo" médico em Cuba, onde todos recebem um tratamento digno e humano.
Não sejamos ingênuos de supor que os fatos retratados em "Sicko - S.O.S Saúde" não passam pelo crivo ideológico de Michael Moore. Toda a engenharia fílmica de Moore serve, aliás, ao propósito de desvelar uma das tantas facetas cruéis e internalizadas de um império em visível estado de desorientação. Nenhum efeito estético do documentário desvia deste sentido. (Ver "A dialética da piada velha", por Francis Vogner dos Reis, disponível em http://www.revistacinetica.com.br/sicko.htm , acesso em 8 abr. 2008.) Se, por um ângulo, não há maiores pretensões formais, tampouco há presunção nas tomadas. O vôo se propõe e se estabelece de modo raso e direto, sem firulas no ar. Méritos para o diretor, que atinge seus objetivos: informar, desconstruir verdades forjadas, pôr a refletir acerca de um sistema que desacostumou as pessoas ao exercício crítico e que adotou, no pós-Guerra Fria, uma postura arrogante e, em muitos aspectos, extremista.
Em suma, "Sicko - S.O.S Saúde" nos alerta para as perversões do capitalismo especulativo, que não se restringem à saúde dos norte-americanos. No Brasil, por exemplo, podemos enxergar manobras criminosas para obtenção de lucro máximo - com as quais nos habituamos sem muita grita, com o adendo de que nossa mídia mesquinha pratica um denuncismo de classe média com apenas uma missão, no caso desgastar ou angariar concessões do Planalto Central. O Metrô Rio implantou, recentemente, sem qualquer discussão com a dita "sociedade organizada", um sistema de bilhetagem eletrônica que vende cartões unitários de acesso àquele transporte - com validade de 48 horas. Comprou dois cartões e pegou carona na volta? Azar, meu caro. Use o passe no dia seguinte ou adeus! Isto, claro, para sedimentar a capitalização da empresa, que joga duro no prazo do unitário para garantir a vendagem de seu cartão múltiplo, com preço inicial de R$ 20,00. É ou não uma perversão do capital? Depois do esvaziamento de uma das mais combativas categorias profissionais do país, os bancários, em troca das "facilidades" do atendimento automático, o Banco do Brasil, uma empresa pública - ao menos até prova em contrário! -, hoje cobra tarifas por saques realizados em seu caixa eletrônico, normalmente a partir do décimo saque no mês; o que quer dizer que, no final das contas, a mão de obra assalariada foi substituída pela mão de obra que... paga para trabalhar! Não é fantástico?!
Críticas à parte a qualquer "manipulação" da matéria tratada em "Sicko - S.O.S Saúde" - como se isso não coubesse a um diretor mas, vá lá, que tá cheio de documentarista chapa-branca por aí! -, ninguém pode negar que Michael Moore investe pesado, ainda, contra a farsa da comunicação midiática que fundou o mito da imparcialidade, inexeqüível num mundo que respira valores. Moore assume seu lado e mira sua arma de guerrilha cultural contra os teoristas de um universo de pensamento uniforme, promovendo, enfim, corrosão no seio de uma sociedade que precisa se rever para reaver certos traços que o capital tratou de brutalizar.
Gustavo Dumas é escritor e revisor. Publicou, assinando com o heterônimo de Zeh Gustavo, os livros de poesias "A Perspectiva do Quase" (Arte Paubrasil, 2008) e "Idade do Zero" (Escrituras, 2005).
Contato:zehgustavo@yahoo.com.br
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