Algo A Dizer
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O mundo visto desde o Sul

Esta entrevista com o pensador egípcio Samir Amin está composta de três partes: 1) O mundo visto desde o Sul; 2) A implosão do capitalismo e 3) Estratégias imperialistas e lutas políticas. Samir Amin é autor de uma volumosa obra de análise crítica do capitalismo e de inovadoras teses, tais como a da “desconexão” e a da “implosão” do capitalismo, às quais ele se refere nesta entrevista traduzida por Diário Liberdade.

Por Irene León

Irene León – Queríamos focar esta entrevista em três problemáticas distintas, mas relacionadas: sua visão sobre o mundo e as possibilidades de transformá-lo; sua proposta conceitual e política em torno da implosão do capitalismo e sua desconexão; e a análise do contexto mundial visto especialmente desde o Oriente Médio e a África. Qual é a sua visão sobre o mundo visto desde o Sul e desde uma perspectiva do sul?

Samir Amin Para responder a esta pergunta, que não é nada simples, é necessário dividir o tema em três partes. Interrogaremos primeiramente sobre quais são as características importantes e decisivas do capitalismo contemporâneo – não do capitalismo em geral, mas do contemporâneo –; o que tem de realmente novo; o que é que o caracteriza. Em segundo lugar, enfocaremos na natureza da atual crise que, mais do que uma crise, eu a defino como uma implosão do sistema capitalista contemporâneo. Em terceiro lugar, neste mesmo marco, analisaremos quais são as estratégias e as forças reacionárias dominantes, ou seja, do capital dominante, da tríade capitalista Estados Unidos-Europa-Japão e de seus aliados reacionários no mundo inteiro. Somente tendo compreendido isto, poderemos dimensionar o desafio que se enfrentam os povos do Sul, tanto nos países emergentes como no resto dos países.

Minha tese sobre a natureza do sistema capitalista contemporâneo – que de modo mais modesto a chamarei de “hipótese”, porque está aberta à discussão – é que entramos em uma nova fase do capitalismo monopolista, trata-se de uma etapa qualitativamente nova, pautada pelo grau de centralização do capital, cuja condensação chega a tal ponto que, hoje em dia, o capital monopolista o controla totalmente.

Claro que o conceito “capital monopolista” não é novo, foi designado no final do século XIX e, de fato, desenvolveu-se como tal através de distintas fases sucessivas, durante todo o século XX; mas é a partir dos anos 1970-1980 que desponta uma etapa qualitativamente nova, pois antes já existia, mas não o controlava totalmente. Na atualidade, já não existe nenhuma atividade econômica capitalista que seja autônoma ou independente do capitalismo monopolista; este controla todas e cada umas das atividades, inclusive aquelas que conservam uma aparência de autonomia. Um exemplo, entre muitos, é o da agricultura nos países capitalistas desenvolvidos, onde é controlada pelos monopólios que proveem os insumos, as sementes selecionadas, os pesticidas, os financiamentos e as cadeias de comercialização.

Isso é decisivo, é uma mudança qualitativa ao que eu chamo de “monopólio generalizado”, ou seja, que se estende a todas as esferas. Esta característica provoca consequências substantivas e importantes. Em primeiro lugar, desvirtuou-se completamente a democracia burguesa, pois se antes se baseava em uma oposição esquerda-direita, que correspondia a alianças sociais, mais ou menos populares, mais ou menos burguesas, mas diferenciadas por suas concepções sobre a política econômica, na atualidade, nos Estados Unidos, por exemplo, republicanos e democratas, ou na França socialistas da corrente de Hollande e a direita de Sarkozy, são o mesmo, ou quase o mesmo. Ou seja, todos estão alinhados a um consenso que é a ordem do capital monopolista.

Essa primeira consequência constitui uma mudança na vida política. A democracia, assim desvirtuada, converteu-se em uma farsa, como se vê nas eleições primárias dos Estados Unidos. O capital monopolista generalizado provocou consequências muito graves, converteu os Estados Unidos em uma nação de “bobos”, é grave porque a democracia já não se expressa.

A segunda consequência é que o “capitalismo generalizado” é a base objetiva da emergência do que chamo de “imperialismo coletivo” da tríade Estados Unidos-Europa-Japão. É um ponto que afirmo com veemência, pois ainda sendo uma hipótese estou na condição de defendê-la: não há maiores contradições entre os Estados Unidos-Europa-Japão, existe uma ligeira competição no plano comercial, mas no plano político, o alinhamento às políticas defendidas pelos Estados Unidos como política mundial é imediato. O que chamamos “comunidade internacional”, copia o discurso dos Estados Unidos e três minutos depois aparecem os embaixadores europeus, com alguns figurantes de grandes democratas, como o Emir do Catar ou o rei da Arábia Saudita. A ONU não existe, essa representação dos Estados é uma caricatura.

É esta a transformação fundamental, a transição do capitalismo monopolista ao “capitalismo monopolista generalizado”, o que explica a financeirização, porque estes monopólios generalizados são capazes, devido ao controle que detém sobre todas as atividades econômicas, de extrair uma parte cada vez maior da mais-valia em todo o mundo e convertê-la na ladeira monopolista, a ladeira imperialista, que constitui a base da desigualdade e do estancamento do crescimento dos países do Norte e da tríade Estados Unidos-Europa-Japão.

Isso nos leva ao segundo ponto: é este sistema que está em crise e, ainda mais, não é somente uma crise: é uma implosão, no sentido que este sistema não é capaz de se reproduzir desde suas próprias bases, ou seja, é vítima de suas próprias contradições internas.

O sistema implode, não porque seja atacado pelo povo, mas por causa de seu êxito, o êxito de ter conseguido impor-se ao povo o leva a provocar um crescimento vertiginoso das desigualdades, que não somente é escandaloso socialmente, mas também inaceitável, mas acaba sendo aceito, e aceito sem objeção; mas não é essa a causa da implosão, mas o fato de que não pode se reproduzir desde suas próprias bases.

Isso me leva à terceira dimensão, que tem a ver com a estratégia das forças reacionárias dominantes. Quando falo de forças reacionárias dominantes me refiro ao capital monopolista generalizado da tríade imperialista histórica Estados Unidos-Europa-Japão, a qual se somam todas as forças reacionárias mundiais que se agrupam, de uma forma ou de outra, em blocos hegemônicos locais, que sustentam e se inscrevem nesta dominação reacionária mundial. Estas forças reacionárias locais são extremamente numerosas e diferem enormemente de um país a outro.

A estratégia política das forças dominantes, ou seja, do capital monopolista generalizado, financeirizado, da tríade imperialista coletiva histórica tradicional Estados Unidos-Europa-Japão, está definida pela sua identificação ao inimigo. Para eles, o inimigo são os países emergentes, ou seja, a China; o resto, como a Índia, o Brasil e outros, são para eles semi emergentes.

Por que a China? Porque a classe dirigente tem um projeto, não vou entrar em detalhes sobre a natureza socialista ou capitalista deste projeto, o importante é que conta com um projeto que consiste em não aceitar as ordens do capital monopolista generalizado financeirizado da tríade, que se impõe mediante suas vantagens: controle da tecnologia, controle do acesso aos recursos naturais do planeta, dos meios de comunicação, da propaganda, etc, o controle do sistema monetário e financeiro mundial integrado e das armas de destruição massiva. A China vem questionar esta ordem, sem fazer ruído.

A China não é subcontratada, há setores na China que sim são, em sua qualidade de fabricantes e vendedores de jogos baratos e de má qualidade, somente porque necessitam lançar mão de divisas, isso é fácil, mas não é isso que caracteriza a China, mas o seu desenvolvimento e a rápida absorção de tecnologia de ponta, sua reprodução e desenvolvimento próprio. A China não é a fábrica do mundo, como opinam alguns. Não é “made in China” (feito na China) mas “made by China” (feito pela China), isso agora é possível porque eles fizeram uma revolução: o socialismo construiu paradoxalmente a via que fez possível disputar um certo capitalismo.

Eu diria que depois da China, o resto dos países emergentes são secundários. Se fosse necessário classificá-los, classificaria de emergente a China em 100%, o Brasil em 30% e o resto dos países em 20%. O resto, em comparação com a China, é subcontratado, porque têm negócios de subcontratação importantes, porque têm uma margem de negociação, há um compromisso entre o capital monopolista generalizado financeirizado da tríade e os países emergentes como a Índia e o Brasil e outros. Não acontece o mesmo com a China.

Por isso a guerra contra a China aparece como parte da estratégia da tríade. Há 20 anos já havia americanos loucos que defendiam a ideia de se declarar a guerra, porque depois seria muito tarde.

Os chineses tiveram êxito, é por isso que sua política exterior é tão pacífica, e agora a Rússia entra para formar parte, junto a eles, da categoria de verdadeiros países emergentes. Vemos Putin propondo a modernização do exército russo, tentando refazer o que era a armada soviética, que constituiu um verdadeiro contrapeso à potência militar dos Estados Unidos, isto é importante. Não discuto aqui o fato de que o Putin seja ou não democrata, ou se sua perspectiva é socialista ou não; não se trata disso, mas da possibilidade de contrapor o poder da tríade.

O resto do mundo, o resto do Sul, todos nós, vocês os equatorianos, nós os egípcios, e muitos outros, não conta. Ao capitalismo monopolista coletivo, nossos países apenas são interessantes por uma única razão: o acesso aos novos recursos naturais, porque este capital monopolista não pode se reproduzir sem controlar; destruir os recursos naturais de todo o planeta. É o único que lhe interessa.

Para garantir um acesso exclusivo aos recursos naturais, os imperialistas necessitam que nossos países não se desenvolvam. O “lumpen desenvolvimento” como definiu Andre Gunder Frank, se deu em circunstâncias muito distintas, mas tomo emprestado o termo agora em condições diferentes, para descrever como o único projeto do imperialismo para nós é o não-desenvolvimento. O desenvolvimento do anômalo: pauperização mais petróleo, crescimento falso ou gás, madeira, o que seja, para ter acesso aos recursos naturais e é isso o que está a ponto de implodir, porque é o que se tornou intolerável moralmente, o povo não aceita mais.

É aqui onde se geram as implosões, as primeiras ondas de implosão se originaram na América Latina, e não é produto do acaso que tenham tido lugar em países marginais, como a Bolívia, o Equador, a Venezuela. Não é produto do acaso. Depois da primavera árabe já teremos outras ondas no Nepal e outros países, porque não é algo que esteja acontecendo somente em uma região específica.

Para o povo que é o protagonista disto, o desafio é enorme. Ou seja, o desafio não se dá no marco deste sistema, na tentativa de transcender desde o neoliberalismo até um capitalismo com rosto humano, entrar na lógica da boa governança, da redução da pobreza, a democratização da vida política, etc., porque todos esses são modos de gerenciar a pauperização, que é o resultado desta lógica.

Minha conclusão – desde uma postura focada principalmente em um mundo árabe – é que esta não é apenas uma conjuntura, mas um momento histórico que se apresenta formidável para o povo. Refiro-me à revolução, mas ainda que eu não queira abusar deste termo, estão dadas as condições objetivas para construir amplos blocos sociais alternativos anticapitalistas, há um contexto para a audácia, para propor uma mudança radical.

Tradução: Gabriela Blanco

Fonte: Diário Liberdade (10 de abril 2012), pelo site “Socialismo e Liberdade”: http://www.socialismo.org.br/portal/filosofia

 
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Comentários
  Orlando Lemos
28/04/2012

Excelente entrevista. A abordagem feita por Samir é de uma lucidez impressionante. Parabéns!
 
 

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