Algo A Dizer
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O cão

Por Manoel Herzog

Nossa relação com o mundo é peculiar. Os menos avisados julgam que a visão em preto e branco nos tolhe a percepção, de maneira que pensam sermos bestas, irracionais, e não os seres avançados que de fato somos. Tolos: nossa perspectiva é o olfato, compreendemos o mundo a partir do focinho. Pouco importa a ausência das cores. Luz e sombra nos bastam, se não nos faltarem os cheiros.

Suzy, a cocker spaniel preta da Aline, era uma cadela interessante, a despeito do cheiro de shampoo. Não era agradável, dava a contínua impressão de ter acabado de sair do pet shop. Devo confessar que prefiro quando as cadelas manam o cheiro do corrimento de suas vulvas sangrentas, no cio. Isto sim, deixa um cão louco. Os humanos imaginam que sua perfumaria nos agrade. Saturam-nos de banhos e tosas. Chegam a outras elaborações ridículas, como nos preparar festas de aniversário, ou comidinhas com requintes culinários. Um casal com menos filhos que o devido, posso falar porque vi, comprava pizza de peperone para Chagall, seu viralatas de estimação – peperone, vejam se pode. Adotaram-no, a Chagall, numa feira, atitude politicamente correta e sinceramente piegas, como se a pieguice humana pudesse ser, além de hipócrita, sincera – e mais, correta. Quero, mais tarde, fazer considerações sobre a procriação do casal humano, sob a perspectiva canina. Primeiro, a Suzy.

Entendam que feder para um cão é diferente do que é para um homem. Temos ojeriza a alguns aromas que aprazem o olfato primata. Suzy vinha na coleira de sua dona, fedendo a shampoo, alegre. Não, não era fingida alegria – nós cães temos o dom de amar sinceramente mesmo quem nos agrida, melhor ponderando, amar quem amamos, ainda que nos agrida. Coisa de mamífero – chutem uma cobra pra ver. O conceito de amor próprio para os cães é mais sofisticado. Estamos a salvo do masoquismo, por exemplo. Superamos a maldade com amor em estado animal.

Queria muito dar uma travada daquelas na Suzy que, a par do disfarçante shampoo, exalava cheiro de vulva canina no cio. No sexo, nós cães somos também mais sofisticados que os primatas excelsos. Nosso orgasmo trava, gruda, não tem o que separe, nem água fria, nem porrada. E choca na certeza – grudou, emprenha.

Preparei-me naquela manhã pra dar um cata na Suzy, se ela de fato conseguisse dar a escapadela matinal para fazer um xixi. As fêmeas mijam deliciosamente, arreganham as perninhas e quase deixam a menina tocar o chão. Vinha fuçando o mijo da Suzy há vários dias. Nos últimos três fiquei alucinado: mijo com sangue de ovulação, estava pronta para montar. Pois me preparei, dei um jeito de ficar cheiroso também. Já vinha notando um rato morto perto da caçamba de lixo, no prédio em construção. Passei lá de manhã – o Theo me solta todo dia, para que eu urine e defeque. Tive que levar muita porrada até largar o hábito canino de marcar meu território, no quintal de casa, com xixi. Mesmo com porrada e sendo forçado a alterar minha natureza, amo o Theo – sou seu dono, trato dele como os humanos tratam seus filhos, por mais que magoem, amam. Do prisma canino o dono sou eu, razão pela qual perdoo sua estupidez. Tenho que cuidar dele, é minha missão, fazer vista grossa às suas más-criações.

Theo vacilou, me deixou livrar da coleira para alívio das necessidades matinais. Urinei nos postes de sempre, em cima das marcas que Sultão, o fila preto da mulher do sobrado laranja, insistia em consignar nos meus limites, com suas mijadas demarcatórias. Andei mais um pouco até embaixo de um flamboyant, cheirei o chão, bom lugar, rodei um pouco sobre o local, círculos em sentido anti-horário – isto limpa a energia negativa – e erigi, agachado, um castelo de cocô – território meu, conquistado, dominado. Estava meio pastoso, geralmente defeco duro, esta ração que o Theo compra faz a gente fabricar pedra. Maldade dele, causa-me fissuras – nem faço no quintal – mas relevo, sou seu dono, tenho que protegê-lo. Theo não é do tipo que sai com sacola plástica catando a obra do cãozinho. Pois que defequei pastoso, restando um fio de excremento no meu ânus, sob o cotoco do rabo. Fizeram-me esta crueldade de amputar o rabo com três dias de vida, filhos da puta – odeio pet shop. Sabem como um cão se limpa? Sem ser escatológico, permitam-me contar: sentei de cu no chão, o coto do rabo em riste, as patas traseiras abertas, pés para cima. Com as patas dianteiras fui arrastando o corpo pra frente, fazendo a fricção do ânus na terra da rua arrastar os resíduos. Quando faço isso é fatal a ereção, a cabeça pontiaguda do meu falo canino sai automaticamente pra fora. Pronto, estava limpo e aliviado. Fui lá pro rato morto, cadáver que estava desmanchando. A carne soltava dos ossos.  Cheiro maravilhoso. Deitei por cima, quem nem fazem os cavalos no pasto, me lambrequei de carniça, costas pro chão. Agora sim, estava bem apessoado.

Suzy entendeu minha produção, parou de narinas pro céu, senti que sua vulva pulsava. Vi uma gota de menstruação, uma grossa gota, pingar. Dei a letra no momento exato em que a dona aliviou a coleira pra ela dar sua mijadinha. Ela fugiu pra mim. Bingo.

A miséria do egoísmo não existe pra nós cães: o cheiro de cio da Suzy chamou mais quatro companheiros. Balu, meu camarada, Neguinho, um viralatas preto de focinho fino, da outra rua, e Tapir, outro viralatas cinza, de pelo lanoso e sujo. E mais, para minha infelicidade, o puto do Sultão, que ali rondava.

Nós cães temos uma natureza absolvida tanto do masoquismo quanto do ciúme. A cadela ovula sete, oito vezes, por cio. Se cinco cachorros a foderem no mesmo dia ela pare filho dos cinco. O cio da cadela é natural, nunca forçado, quando uma cadela se permite montar é com uma finalidade sublime de procriação, cumpre um desígnio da Mãe Natureza, e um cão, quando copula, o faz com fé, chega a travar, gruda mesmo. As cadelas não produzem um óvulo por vez, logo não pode um único macho querer monopólio – isso é coisa de humano, bicho egoísta, bicho com ego. Eu dividiria o prazer da Suzy com meus manos viralatas, principalmente com o Balu. Só queria meu direito de primícias, eu e ela éramos da mesma raça, embora eu seja um cocker dourado, e ela preta. Encostei na turma.

Humanos apertam mãos, nós cães cheiramos cus. O cheiro do ânus do parceiro é o reconhecimento afetivo. Cheirei o do Balu primeiro, no que houve recíproca. Grande satisfação por ver meu amigo. Eu e os viralatas também nos cheiramos mutuamente, aos cus. Da forma como os humanos também hipocritamente apertam as mãos dos que consideram filhos da puta, fui lá no Sultão, educadamente, cheirei o cu dele, ele o meu.

"E aê, Sultão, beleza?”

"Beleza. O primeiro vai ser eu, aê.”  - grunhiu com a voz de fila arfante.

“Tá louco? A Suzy é da minha raça.”

“Mas é da minha cor, pretinha.”

“Nem fodendo. Ela, então, que decida.”

A Suzy, claro, virou o rabo pra mim. Problema foi que Sultão, julgando que seu tamanho o garantisse, achou de furar fila - sem trocadilhos - e montar na pequena. Sou um cocker dourado, tenho linhagem e brios. Sou um cão inteligente, teimoso e violento quando necessário. Grudei dentes na pele lassa do pescoço daquele fila, nos pegamos feio, mostrando dentes e urrando, a mulherada da rua gritava de desespero, a dona da Suzy surtou. Os moleques saíram dando pedrada, fugimos os seis pra dentro do prédio em construção.

Sultão só tinha tamanho. Vazou ganindo, pescoço rasgado. Eu e os meus três manos ficamos nos divertindo com a Suzy aquele cio todo.

Já presenciei o Theo falando pra Agda, sua mulher, com certa pena dos cães, que nós só copulamos no tempo do cio. E a fingida ria, dissimulada, como se tivesse também pena de nós. Sei que ela queria que os homens fossem assim, respeitassem o cio feminino. Não é isso o certo? Quando as cadelas não estão no cio, na moral, eu e meus companheiros batemos um troca-troca, sem culpas. Agora, não tem promiscuidade, estamos a salvo disso, bem como do masoquismo, e do ciúme. Os humanos é que converteram o sexo em sacanagem. Uma coisa é uma coisa, outra coisa, outra. Grudar, só para procriação. Somos muito mais sofisticados que os humanos, como podem ver. Naquele momento, com a cadela no cio, nos cabia a nós foder, e o fizemos. Valendo-me do privilégio de ser o primeiro, comecei dando umas estocadas montado na Suzy, grudei-lhe nas costas e comecei a sarrar, levando a glande pontiaguda por toda a região do ânus e da vulva, entrasse onde fosse. Apeei um pouco, para diversão do Balu, que tirou sua onda - Neguinho e Tapir também, na sequência. Quando voltei pra segunda sessão, a Suzy já virava olhos e tinha a língua de lado: que cadela. O cheiro estava tão louco que quando grudei as patas dianteiras, apertando a barriguinha dela, e comecei a bombar, achei o veio, e o falo entrou, e no lugar devido. Quando entrou, senti que se projetava mais pra fora de mim e, uma vez lá dentro, abriu-se feito um guardachuva. Gozei feito cão - desculpem a redundância.

Depois do orgasmo, o guardachuva fica ainda armado, como bem sabem. Fomos pra rua grudados - aí me dei mal: a dona da Suzy, vendo a filha naquela situação, começou a gritar:

“Ai, meu Deus, ela não é castrada.”

Theo, com a habitual hipocrisia, que perdoo - ele pensa que é um gentleman - achou de fazer média com a dona da cadela. Lançando mão de um cabo de enxada, para minha desgraça disponível na caçamba onde achei o rato, deu-me com ele ao lombo por diversas vezes, para que desgrudasse da vulva da Suzy. Não dava.

“Hector, seu cachorro filho da puta.” gania ele, e descia o madeiro.

Estávamos, eu e a Suzy, na mesma posição em que meu dono costumeiramente dorme com sua mulher – bunda com bunda. Tiveram já seus filhos. Casaram tarde, o ex-marido dela até se matou assim que ela engravidou a primeira vez. Era uma boa parideira, seguiu tendo mais filhos com o Theo, sem culpa. Ele é que se culpava, cristão, lembrava do rei Davi. Foi bom terem filhos, ele me deixou mais livre, talvez me leve até para o sítio.

Eu e a Suzy nos estranhávamos, já satisfeitos, unidos pelos laços da mãe Natureza tão somente para cumprimento do sagrado mistério da procriação. Não havia o que separasse, e até queríamos, nos havíamos fartado um do outro, e nos dávamos de bunda.

O pior ainda não tinha acontecido. Os moleques vieram com suas pedras, uma senhora jogou um balde de água fervendo, todo o ritual de subúrbio. Ganíamos nossa desgraça, nosso amor de cão, amor bandido, sofríamos nosso gozo. Por fim, depois de bastante judiados, os humanos circundantes nos deixaram, até porque a própria Aline, dona da Suzy, e o Theo, impediram maldade maior. A coisa foi lasseando naturalmente, sob o olhar impotente dos nossos mascotes, sabiam não haver lavagem ou pós-anticoncepcional que viesse impedir a prenhez da cadela.

Foi fato. Nasceram tão somente cockers, todos meus filhos legítimos – só eu tinha grudado. Ninhada de sete, quatro cadelinhas, três cachorrinhos, alguns dourados, outros pretos. Uma filhote bicolor, malhadinha. A prole foi devidamente partilhada entre os proprietários dos pais, restando ao Theo a parte maior, até porque Aline declinou de seu direito à metade – ficaria com o proveito da venda de apenas dois deles, desde que as despesas ficassem por conta do sócio. Theófilo tenta ser um gentleman.

Anunciados em jornal local, cinco chegaram a ser vendidos, por preço bem inferior ao gasto com vacinas e com a maldade, que bem se poderia poupar, do corte do rabo. Desmamados, se foram.

É muito possível que tenha cheirado o cu de algum filho numa noite de vagabundagem, ou montado numa filha, sem o saber. Pouco importa. Soubesse, montaria do mesmo jeito. Nós, os cães, seres superiores, estamos a salvo da perfídia do incesto. Somos muito, mas muito melhores que os humanos.

Trecho do romance "Os Bichos" (Realejo, 2012), em fase de lançamento.

Manoel Herzog é advogado e escritor. Além de contos publicados em antologias e revistas, é de sua autoria o livro de poesias "Brincadeira Surrealista" (Scortecci, 1987). Tem inédito o romance "Fuga à Amazônia de Mim", finalista do prêmio Sesc Literatura em 2009. Ajuda a coordenar as oficinas literárias do Ponto de Cultura na Estação da Cidadania, em Santos (SP)
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