Algo A Dizer
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Chachá VIII

Por Ivan Alves Filho

Seis e meia da manhã, Rio de Janeiro, aí por volta da virada do milênio. Eu ainda estava meio sonolento, na cama, quando o telefone tocou, estridente. Elaine, minha mulher, atendeu e, sem compreender direito o que estavam dizendo do outro lado da linha, me passou o aparelho:

— “Pegue o telefone. Acho que é para você. Parece francês...”

— Segurei o telefone e comecei a falar com meu interlocutor, em conversa animada. E a Elaine, por gestos, me perguntava o que estava havendo, enquanto eu, tampando a boca do fone, respondia, quase soletrando:

— “É o rei do Daomé. Depois eu explico...”

Claro que ela não entendeu bulhufas do que acontecia. De fato, a resposta era um pouquinho surpreendente. Rei do Daomé... Afinal, não é todo dia que alguém fala ao telefone com o Rei do Daomé, do outro lado do mundo. Convinha dar uma boa explicação para aquilo. Convinha não, urgia.

Começo então por uma pequena correção. O Daomé já não se chama mais Daomé. Mudou de nome para Benim no início dos anos setenta, creio eu. Um país sofrido, marcado a ferro e fogo pela escravidão. E extremamente importante para nós brasileiros. Aprendi com o embaixador e acadêmico Alberto da Costa e Silva que o então soberano do Benim, Osenwede, foi ­– juntamente com Osinloken, de Lagos – o primeiro a reconhecer a Independência do Brasil. Na verdade, o antigo Daomé mantinha laços comerciais e culturais muito fortes com o Brasil. E, em boa medida, isso se deveu – são as voltas que a História dá – a Chachá de Souza, um mestiço traficante de escravos originário da Bahia e que se estabelecera no Daomé na primeira metade do século XIX. Lá, Chachá de Souza, de seu verdadeiro nome Francisco Félix de Souza, construiu navios para seu terrível comércio, exportando escravos para o Brasil e importando rolos e mais rolos de tabaco da nossa terra para a costa africana.  Consta que tinha 65 mulheres, deixando, ao morrer, uma linhagem até hoje residente em Ajudá. Tinha status de rei e foi o primeiro Chachá. De lá para cá, já somam oito, na linha sucessória.

   Aquele que me telefonou era o Chachá VIII, tio do meu amigo Charles de Souza. Mesmo sendo descendente do controvertido Chachá de Souza, meu amigo Charles mantinha um certo espírito crítico em relação ao seu antepassado. Mas o orgulho pelas raízes brasileiras falava mais alto. Ele mesmo nascera no Togo e fora criado no Benim. Tanto no Togo quanto no Benim e na Nigéria havia uma importante comunidade de africanos cujos anscestrais estiveram ou mesmo nasceram no Brasil e depois retornaram à África. E essas comunidades teriam depois um papel importante na luta contra o colonialismo europeu no continente africano. Um exemplo: o primeiro Chefe de Estado do Togo, Sylvanus Olympio, era descendente de brasileiros. Mais: esses grupos nunca se desligaram totalmente do Brasil. Ainda hoje, cozinham pratos brasileiros, como a feijoada; fazem doces, como a cocada e o pé-de-moleque, conhecem várias palavras em português do Brasil e têm no vodu abrasileirado uma fortíssima referência religiosa. Saravá!

Em Ajudá, a família Souza administra um centro cultural brasileiro, como forma de manter os laços conosco. Charles de Souza e Chachá VIII – essa a razão do telefonema deles – tinham o maior interesse em me levar para uma temporada no Benim. Achavam que eu, como historiador, poderia contribuir para estreitar ainda mais essas relações com o Brasil, trabalhando na organização do centro de cultura. Infelizmente, não houve recursos ou condições para se fazer isso. Eu teria apreciado muito a experiência, até por minhas ligações com a família.

Essa foi, de certa forma, a minha segunda frustração em relação à África. A primeira se deu quando a Unesco, por intermédio de seu secretário-executivo, o diplomata senegalês Doudou Diènne, me convocou para apresentar um projeto sobre a escravidão nos arquivos internacionais. Naturalmente, senti-me extremamente honrado com o convite. E preparei o texto em 20 dias, submetendo-o à direção da Unesco, em Paris. Qual a ideia? Demonstrar que a África já pagara um preço extraordinário ao chamado mundo desenvolvido e, que, por isso mesmo, deveria ocorrer uma modalidade de resgate histórico desse continente, que teria sua dívida externa perdoada pelas grandes potências. Ninguém menos do que Nelson Mandela faria esse anúncio, na sede da ONU, em Nova York. O projeto foi aprovado, mas não tivemos condições políticas e econômicas de implementá-lo.

Seja como for, uma coisa eu garanto: se o telefone tocar novamente, atenderei com o maior prazer. Ou não devemos à África grande parte daquilo que somos hoje?

Ivan Alves Filho é historiador e jornalista, autor de uma dezena e meia de livros, entre os quais Memorial dos PalmaresBrasil, 500 em documentosGiocondo Dias - Uma vida na clandestinidade e O historiador e o tapeceiro

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