Algo A Dizer
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O cão sem saída

Por Marcílio Godoi

Então descobriu que não era arte. Que tudo não passava da ancestral angústia dos mortais. Talvez, sim, modificada geneticamente em gerações, mas compreendeu miseravelmente que, diante da aparente e extraordinária inquietude de seu espírito, frente à perplexidade incomum de sua pretensa invenção, perante o espanto e o mistério da oferenda magna de deuses cruéis ou gentis a que se sentia aprisionado, bastava um comprimido.

Mais tarde, refletiu também que, de fato, aquele seu fazer de anos de criativa inadequação ao mundo nada tinha de artístico e que, sem relevância alguma, era senão apenas um indício de fragilidade, doçura, humor, carência ou talvez, quem poderia assegurar, um leve desapercebido sintoma de parvoíce mesmo.

Pensou ainda a esse tempo de sinceridades excepcionais, e assentado em dura autocrítica, que os fumos evolados de sua experiência artística eram qualidades altamente incompatíveis à realidade mesma da vida, ao levantar inexorável do dia útil, à aspereza das coisas funcionárias, frias tais como elas em verdade são. Tais como em que elas se transformaram, ao longo dos duros mais recentes calendários.

Que desenhasse a molécula ulterior à alma, que esculpisse o momento inescapável das tragédias humanas, que representasse o caos da matéria pela não-matéria no vórtice negro do universo, que cantasse a Ilíada em molhos de romãs, que tocasse, em escritos imagéticos, voluptuosos ou esquálidos, a velha valsa vienense. Que regesse um coro de pincéis & corcéis no grande painel do fim dos tempos. Mesmo assim, jamais adentraria ele o lugar contraditório-supremo reservado aos bafejados por deuses caprichosos, os verdadeiros artistas.

Súbito viu-se em torno da modelo vivo, nua, no círculo agitado dos jovens pretendentes ao sensível supremo posto de espectadores da vida em sua mais nobre fachada, quase sempre pós-anti-neo-clássica, a da Arte. Estudante, ele estava ali. Sim, era ele. Mas isso fazia muito tempo. O tempo de quando as coisas ainda eram sem pressa e sem pressão, quando o mundo era mais ou menos simples, sem tantos muros antigos, e o passado ainda era feito à mão.

Houve mesmo esse tempo, infantil, pois que a infância do tempo. O tempo em que a arte era um alto monte a que se atingisse e se conquistasse com os devidos esforços plásticos e semiológicos. A arte era nada breve, mas era então fincada em uma rocha confiável que nos aguarda, mágica e materna, como deveriam ser as musas e as montanhas daquele tempo.

Mas a visada desavisada da vida não tardaria em brutalidades trucidantes, embora lentas, sobre aquela fotografia de futuro que se imprimira inadvertidamente em algum lugar de seu desejo ingênuo, estudante. E os meandros sacanas de deuses brincalhões novamente se impuseram, sem que fossem necessários trovões, trombetas ou plúmbeos céus de nuvens bíblicas.

No plaino abandonado que amornou inspiradoras e ferozes brisas, mais se confundia a arte a um horizonte ao longe, muito distante, uma coisa a se divisar, trespassada como a bala do poema, não a se dominar.

Mas não lhe pareceu de todo mal essa nova perspectiva no espaço esférico da grande dúvida que a arte passara a representar para ele, no desafio estimulante que representa mesmo a arte. Eis a parábola tola que o acompanhava a esse tempo como uma espécie de zumbi: o admirável-diáfano mito da criação artística.

Mais tarde foi percebendo, no entanto, que a arte, tal como ele a contemplava, era dotada de muitos, infinitos planos, e, antes, seria ela uma longa viagem sem volta, sem horizonte algum e cheia de intrincados recomeços. Ainda assim ele amou amar a arte nesses labirintos dialéticos, como uma ciranda espiral que tragasse a sua fé... na arte.

Foi então que, aos poucos, começaram a surgir nele a desconfiança, a ligeira náusea, o incômodo desanimador, os primeiros indícios de que a arte, essa arte que aí está, nas galerias, nos museus, na televisão, no cinema, nos teatros e nas revistas não passava de um excepcional profissionalíssimo espetáculo de entretenimento comercial. Sim, pois havia diante dele muitos eventos artísticos e nenhuma experiência artística verdadeiramente real em vista. No sentido transcendente da palavra experiência, que era o que, a seu ver, caberia à arte-arte. Era como se ele padecesse de espantosa anestesia.

Um buraco muito escuro e fundo se lhe abriu aos poucos. Uma mistura de desalento e cansaço foi se formando em volta dele enquanto tentava erguer uma melhor figuração do que lhe parecia então "arte". Nela já não enxergava mais o salto para dentro do grandíssimo enigma, com seu feixe elétrico de transformações, senão, irremediavelmente, era um grande programa de atrações constrangedoramente midiáticas. A arte havia-lhe virado uma coisa.

Para onde teria ido a sua mais íntima confidente, a musa nua de todas as escolas para além mesmo da vida? Onde teria ido parar o frontspício inspirado-trabalhadíssimo no lento esculpir do tempo-livro, o centro da vida, a Arte?

Seria ele ainda um suposto desbravador desses mistérios? Assim não lhe pareceu mais. E sem querer se precipitar em juízos falsos, deslocados, desolados, dramáticos ou simplesmente perigosamente infantis, amargos ou adocicados que fossem, autocomplascentes como já vivera, pensou que havia ainda um outro recurso nobre no mundo, que agora lhe parecia mais afeito ao que, ao longo dos últimos anos, se autoempreendera.

Referia-se, remediado, ao amor. Ao sentido-sentido nobre em estado bruto. O amor puro, o amor comezinho e maior, a mais essencial conquista, a ventura pessoal mais rica a que se pode se entregar um ser humano. O simples amor: desafio ético-estético-humano-filosófico-científico-político-artístico imbatível. Para simplificar, escolheu uma palavra que traduzisse agora o entendimento mais pleno da vida: cachorro. O sentido cachorro.

Assim, pensava ele, qual é o preço, qual é a aposta, qual é a recompensa que se mereça receber ou pagar agora pela arte? Esqueça o montante, estaremos sempre diante de um monte, montepio, monturo, montaria. A não ser que sejamos simplesmente cães. E pensava ele, maculado por sua própria quixotesca pretensamente precisa mais recente visão, solitária ou não: "a arte nunca vai ser mais que o seu debate". Que venha-me cachorramente o amor, pensava.

Assim, com o seu olhar novo de cão, entendeu com suas radicais novas velhas ferramentas amorosas, que a arte seria uma contabilidade inútil, que a arte estava, sim, altíssima, cheia de saídas de emergência, cheia de lançamentos de prêt-à-porter, mas ainda sob, bem abaixo do amor. Sim, o amor; frágil e difícil frequência que só os ouvidos fiéis e solidários dos cães são capazes de distinguir. Amor cachorro, certificava-se.

Despediu-se então de pensar a arte como dom supremo dos cânticos e dos vitrais, dos templos metafísicos cabedais. Queria-a apenas no lugar exato do que lhe cabia, quando estirada na história em seu debate. Interessava-lhe a arte agora como experiência íntima, como desfrute pessoal, queria a experiência ética da arte, não mais o seu cunho sentimental e estético. Arte também cachorro.

E então, certo ou errado, muito equivocado ou novamente autoenganado, tomou o amor como a forma mais íntima e verdadeira da arte mesma. Mas não pode evitar uma pequeníssima pulga atrás de sua orelha que lhe assoprava: e se confessasse, de súbito, que nunca amara ninguém?

Ao final, olhou para si mesmo mais uma vez, a alma em andrajos como de resto todo ele. Rodeou destronado e mudo os dois olimpos particulares, tudo que fizera erguer autodidaticamente: arte e amor, montes que se distanciavam cada vez mais frente a seu corpo puído, atual configuração de si mesmo no mundo, ele e seu decadente amoroso, desgostoso mister de ex-artista, ex-amante.

Ao longe, ouvia um réquiem de consciências, réstias de vozes e estranhos rumores convertidos em confusa ladainha. Era o cansaço que sentia. Deu mais alguns passos, e enfim escolheu uma árvore de copa menos tímida e tronco forte, natural, amigo. Rodou uma e ainda mais uma vez o eixo instável de si, recostando-se ali, meio deitado. E repousou então. Simplesmente cão.

Marcílio Godoi é arquiteto e jornalista. Mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, escreve há quatro anos a Coluna "O português é uma figura", na Revista Língua Portuguesa e é autor de A inacreditável história do diminuto sr. minúsculo, (vencedor do Prêmio Barco a Vapor 2012), São Paulo, cidade invisível, uma reportagem literária sobre personagens marginais à grande metrópole (vencedor do Grande Prêmio Cásper Líbero 2002); Ingrid, uma história de exílios, a saga de uma menina em busca do passado misterioso do pai; A pequena carta, uma fábula sobre a gênese de nossa primeira reportagem, a carta de Caminha; e Pequeno dicionário ilustrado de palavras invenetas, um ensaio lúdico com neologismos da língua portuguesa

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