Algo A Dizer
Algo a Dizer
 

Naquele tempo

Por James Faulkner

Caso houvesse um registro qualquer do significado do verbo esperar, saberia que esperava, de forma intransitiva - pois, sem a noção do que lhe poderia advir, sem noção mesmo do futuro do pretérito, como esperar? Esperava sem sabê-lo, frente aos - a seus olhos - inéditos e ao mesmo tempo frugais Arcos da Lapa.
A camisa social; a calça cujo corte bem-feito e a exata e adequada medida de seu corpo pareciam estranhamente naturais, o acompanhavam, compondo um indefinido ar de elegância sem propósito definido, o que, evidentemente, apenas atestava a naturalidade dos tais cortes. Esperava, sem sabê-lo.
Andar, sim, sabia - alguma indelével intuição não permitira que esquecesse da natureza do ato: erguia-se sobre seus membros posteriores, dava uma volta, olhava o entorno e retornava. Mas nada restava do entorno, após essa proeza peripatética. Andava, sem sabê-lo.
E veio a chuva. Inapelável chuva das águas de março, e essa mesma chuva o apanhou, impiedosa como costuma ser a meteorologia. E ele lhe foi indiferente. Nem um reles "filho-da-puta" escapou de seus lábios - que, aliás, também não eram utilizados para proferir a expressão "gostosa" à passagem de mulheres às quais, em algum passado que, com certeza, tivera, associaria o adjetivo. Tampouco reclamava do sistema de saúde, da segurança, da educação e outros aspectos menos votados da existência humana, enfim. Não reclamava, sem sabê-lo.
Mas sempre há um dia, mesmo que o tal dia não se saiba assim. Os dias nunca se sabem.
E assim passavam por ele toda a espécie de seres humanos (os quais ele não sabia, naqueles tempos, chamarem-se deste forma), como enxames sem rosto, meras ondulações na entropia que era seu esperar sem saber.
Um dia - em que sua camisa social já começava a se tornar anti-social, e em que o corte de sua calça começava a se tornar mais corte do que propriamente calça - um dos passantes (um garoto de uns vinte e dois anos) parou a seu lado, com um baseado aceso, e lhe perguntou o motivo pelo qual ali se encontrava, naquele estado.
As palavras não fizeram sentido, mas ele sorriu - o primeiro gesto que o aproximava da miséria humana há algum tempo que não poderia definir, já que este (o tempo) há muito lhe era algo completamente alheio. Sorriu, e o garoto lhe retribuiu o sorriso.
- Vamos no Cláudio.
E ele foi.
O "Cláudio" era simplesmente um botequim de porta-e-meia, com pastéis semelhantes a comprimidos, no tocante ao tamanho. E ele lá sentou.
Tocavam choro. E bem. Um cavaquinista gordo, de óculos, com a calvície já começando a se manifestar, comandava a roda. Os staccatos do gordo funcionando como se fossem moldura inconteste ao ambiente, se afirmando sem se afirmar, simplesmente funcionando sem quererem ser funcionais, com a naturalidade absoluta de que apenas o espontâneo é capaz. E os tempos fortes lhe calaram como necessidades vitais, e ele bateu - o primeiro gesto que o aproximava da coletividade humana há algum tempo que também não poderia definir - no tampo da mesa.
E bateu bem, no tempo certo. Algo que os verdadeiros músicos reconhecem é alguém que bate no tempo certo, com a conveniência exigida. E os olhares se voltaram para aquele até ali cognominado como "o mudinho maluco que o Gustavo trouxe".
Ao fim da noite - na verdade, o termo exato seria "ao começo do dia", a roda acabou, o samba findou, uma rosa morreu, uma festa acabou, o barco partiu e o "mudinho do Gustavo" ficou sem ter para onde ir, já que, a rigor, habitar era um verbo inaplicável a sua existência.
Dizem, com propriedade, que a Lapa carioca é boa com todos os que são bons com ela. E o mudinho recebeu não apenas um, mas vários convites para dormir nos muitos alojamentos do bairro e de Santa Teresa, sua co-irmã bairral. Resolveram que a casa do Gustavo (em Santa) seria o ideal, já que ele fora o cicerone do suposto mendigo gente boérrima.
No primeiro dia, o dono do apartamento - possesso de justa indignação frente à invasão de seu lar - se surpreendeu: o mudinho realmente cumpria de maneira impecável todas as o obrigações mandatórias ao convívio humano - escovava os respectivos dentes, tomava banhos regularíssimos, era um gentleman à mesa. Só algo incomodava o anfitrião: ele nunca falava. Nunca. Quando tossia, o fazia como se nunca tivesse tossido. Seu tossir era, a cada vez, uma nova experiência, como se testasse órgãos recém-adquiridos, à semelhança do primeiro anfíbio a se arrastar, para fora do Oceano, para terras secas, há inumeráveis milhões de anos. Como se um trilobita repentinamente descobrisse o oxigênio não diluído em água e se intoxicasse com o mesmo. Como se cada passo à frente fosse uma reconstrução do que sentia naqueles tempos.
E foram vivendo. Gustavo se impressionava frente ao asseio do mudinho: se uma simples gota dos inescapáveis cachorros-quentes do Largo da Lapa molhasse sua camisa - que lavava, religiosamente, a cada manhã, permanecendo nu, da cintura para cima, enquanto a mesma não secasse e a passasse - tinha acessos de melancolia, olhando para a mancha, inconformado; se sua calça - que lavava a cada três dias, tendo Gustavo de coabitar, durante a secagem, com um pelado incomunicável - sofresse qualquer sujeira involuntária, olhava para a mesma como se alguma parte de seu corpo lhe tivesse sido arrancada a golpes de canivete cego. Foram vivendo, muitas vezes, sem mesmo sabê-lo - tal é o poder de anestesia a que o convívio diário nos conduz.
E freqüentavam as rodas gratuitas. O mudinho sempre ao lado de Gustavo (que nunca aprendeu seu nome, já que o mesmo não falava), taciturno, contudo disposto a dar suas batucadas precisas e sempre bem-vindas, mesmo por músicos profissionais. E houve outro dia, que também não se sabia dia. Como sói acontecer com os dias.
No Cláudio, lá estavam o cavaquinista gordo, o mudinho e seu - agora, para o povo da Lapa - acompanhante e guia, Gustavo. O cavaquinista (gordo, de óculos, com a calvície começando a se manifestar) inicia um choro. Um choro rápido, aparentemente impreciso, intrincado, como o soar de mil línguas de preto, envolvidas em si mesmo, a tremular orgulhosas em sua promiscuidade de senzala.
O mudinho, do alto de sua mudez, demonstra que deseja tocar o cavaquinho. E aproxima sua mão do instrumento, solene e impenetrável.
A ética do choro se manifesta: ninguém que não seja um bamba pode se intrometer numa roda de bambas. O mudinho, contudo, mantém seu pedido, expresso na forma de um simples gesto e de algumas sílabas que nem mesmo chegam a sê-las. E o cavaquinista gordo atende.
A primeira palhetada é uma decepção, como a esperada por pais neófitos que tentam ver seus filhos nascituros andarem à primeira tentativa. À segunda palhetada, algumas vozes se calam. "O cara é bom", dizem alguns. E, à medida que os temas - agora temas, não apenas palhetadas - vão sendo desenvolvidos, o "mudinho do Gustavo" se mostra um chorão de responsa, não apenas um curioso. Música, sim, música: a linguagem possível mesmo a quem se absteve de falar, e fodam-se os motivos.
O nome dele não importa. Nada importa a ele, por enquanto - agora, que voltou a participar do jogo de gato e rato que perpetramos com a Existência. Mas o próprio retorno à participação já demonstra que resolveu capitular e se render à condição de artista (dentro em breve nossas pequenas picuinhas voltarão a lhe incomodar - melhor para nós).
E, de alguma praia; de algum trem lotado, em que as pessoas contorcionavam-se involuntariamente; da sensação de queimadura de garganta causada pela primeira cachaça do dia em algum botequim obscuro, um outro tipo de choro, cujo nome não lembraria, (já que sílabas ainda - ainda - não haviam retornado a seu código pessoal, e remeteriam a outra coisa, a outro sentimento), naquele tempo, começava a ecoar.
James Faulkner é heterônimo de Fernando Toledo, brilhante escritor e crítico de música, precocemente falecido em 2005
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