Algo A Dizer
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Inhá Ana

Por Cairbar Garcia Rodrigues

Na venda de beira-estrada os caipiras, a cachaça, a linguiça frita e o ar fumarento. E a Inhá Ana, sem vergonha, de um pé só, que o outro foi mordido de cobra e apodreceu e caiu que nem fruta bichada. Mas tinha sido culpa dela, que bebeu e saiu descalça pela escuridão e pisou na bicha venenosa.

Inhá Ana bebia cachaça que só macho agüentava tanto. Fedia no corpo, na boca, na bunda. Mas o seu Joaquim, baiano arretado, velho só de cara, se atrelava com ela no capim molhado dos começos de noite. E todo mundo sabia. Riam dos dois, falavam besteiras, diziam que eram porcos de chiqueiro, que deviam ter saído de alguma festa do capeta, que os dois juntos era a mesma coisa que se juntassem bosta com merda.

No começo apenas Inhá Ana se enfurecia e se estremelicava toda, berrando impropérios com sua boca de dois ou três dentes. Depois o seu Joaquim, que gostava bastante da mulher, só para gozo de macho, começou a se embirrar e ameaçar de fazer uma sangueira com a peixeira que tinha sempre presa à cintura.

Aquele lugar era só de roça, mas duas léguas estrada acima havia uma pedreira onde explosivos estouravam todos os dias. E o seu Joaquim, esperto como ele só, roubou uma banana de dinamite daquelas de arrebentar pedra de duas toneladas.

A venda não mais existe, nem a Inhá Ana, Nem os lavradores bêbados. O cheiro de lingüiça e de fumo de corda e a catinga da mulher escachada e fedorenta agora são coisas perdidas no tempo.

E o seu Joaquim continua a vida em outras terras, buscando outra mulher que tenha cheiro de corpo, de boca e de bunda. Se não der certo arranja outra dinamite,

[11 de abril de 2012]

Cairbar Garcia Rodrigues é poeta e escritor
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