Algo A Dizer
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E eu lá sou caipira?

Por Maria Balé

Tão antigo quanto a humanidade, é o questionamento sobre o volátil conceito do ser feliz. A felicidade é volúvel. Um dia se apaixona por uma pessoa e, antes que o sol se ponha, já flerta com um desconhecido qualquer. Melhor é não se apaixonar por ela, essa tal felicidade. Falsa!

Com sua fala mansa, na melódica da chuva de granizo que cai, lá fora, e não exatamente com tais palavras e sintaxe, é esse o pressuposto que arquiteta Alemão, o pedreiro que trabalha na reforma da cozinha da minha casa. Alto, forte e de passos cadenciados, Alemão é negro. Negro como o café puro que ele toma em goles lentos. Sem pressa. Entre um trago e outro, Alemão engata um assunto, em seguida, passando a outro, na idiossincrática linguagem da ‘comunidade’ onde mora com a família, inteira vinda dos vales esquecidos das Minas Gerais.

— ‘Amanhã, vou trazer malmita, não precisa se agastar com comida pra mim’... Diz, assertivo, porém, sem tirar os olhos do selviço.

— Por que vai trazer marmita? Não precisa. Eu faço comida, todo dia. Eu também como, te contaram? Indago, entre a surpresa e um quê de irritada.

— ‘Essa comida aí é pordimais de sem gosto. Não tem sustança... Parece inté cumida di cuêio...’

— Como assim, Lôro? É comida boa, saudável. Sabia que arroz integral é mais nutritivo que arroz branco? Sabia que o arroz perde muitas vitaminas ao longo do refinamento? Igualqueném o açúcar. Esse açúcar marrom, mais molhadinho, é açúcar mascavo. Menos processado, logo, muito melhor pra saúde. E o que você chama de comida de coelho são os vegetais, muito importantes porque têm muitas vitaminas e elementos essenciais pra gente ter força pra lida do dia a dia, sabia?

— ‘Tudo conversa pra boi dormir. Lá em casa, a gente come comida de gente, com sustança. Feijão com farinha, arroz, tudo feito na banha de porco, com gosto de comida. A gente come torremo, linguiça, ovo frito... Desses mato, a gente aprecia é a couve. Tutu de feijão com couve e ovo frito é dimaisdibão... Óia que eu digo que, se a senhora passasse um mêispras minha banda, comendo a comida da gente, ia até ficar com esses osso do ombro mais escondido. Muié tem que ter carne, não tem que ter osso nas aparênça.

Penso nas séries puxando ferro na academia, horas de suor caudaloso, na tentativa de deixar à mostra os ossos dos ombros e outros tantos.

— Tá tudo bem, tudo muito bom, mas, me diga uma coisa, aqui, pra nóis, Lôro; você não acha que tanta gordura animal, saturada, poderia entupir as suas veias e causar danos sérios para a sua saúde? Você não quer ter uma vida mais saudável?

— ‘Eu? Eu quero sabe o quê? Eu quero é ter uma muié carnuda, umas criança corada e passar o domingo com os bacurí, na piscina de prástico que instalei na laje do meu barraco. Isso, sim, é que é vida!’

— E você fuma, Lôro?

— ‘As veis, só umas pitada. Depois de um tiquinho da marvada. Pra passar o tempo. Escondido da véia... Ô muié braba!’

— Cigarro de palha, imagino.

— ‘Craro que não. E eu lá sou caipira?’

Maria Balé é escritora

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Comentários
  Afonso Guerra-Baião
25/04/2012

Tão delicioso o texto quanto as propostas de culinária nele referidas. Bjs
 
  lucabarbabianca
26/04/2012

Faço também minhas as palavras do Baião. E assim fica Baião de dois, nénão? Barbakisses.
 
  Valéria S. Dantas Lopes
29/04/2012

Maria, o texto é maravilhoso. Trata de um tema que adoro comentar.
São pessoas simples que fazem os dias melhores, tantas vezes. Convivo sempre com alguém assim e me engrandeço a cada descoberta.
A felicidade é simples e está em todo lugar em qualquer escala, independente de qualquer coisa que se pense valer. Ela existe e é assim que vemos que a vida é bela.
Parabéns!
Um beijo, Valéria.
 
 

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